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Quem conta dois contos

Quem conta dois contos

25
Fev18

1124

arp

Corria o ano de 1216, passara um ano sobre o concílio que decorrera em Latrão e, constava, havia sido autorizada uma nova ordem, de pregadores. Zacarias, nome de profeta, menor, não tinha sido abençoado com o dom da palavra. Não tinha sido amaldiçoado, pensava ele quando estava só na sua cela. No sorteio das bênçãos, esse toque divino, incompreensível, que permitia que filhos de inaptos mostrassem toques de génio tocara-lhe a pintura. É certo que havia outras bênçãos, como ter nascido primogénito, o que também não fora o seu caso.

Havia mais de vinte anos, teria dezanove na altura, era agora velho, encerrara-se na abadia construída sobre o local de uma batalha. O rei, agradecido do que, sabia de fonte certa e garantida, havia sido a intervenção divina, que lhe permitira derrotar, um exército maior, mandara erigir um local de culto. Zacarias esperava que toda a beleza e calma neste conjunto harmónico da construção, da pintura e sobretudo os cânticos das vésperas, e das laudes que substituíra os gritos de dor, abençoasse o terreno onde fora derramado o sangue de umas centenas de homens decepados na fúria do embate. A natureza ignorara as agruras humanas e na primavera seguinte à refrega explodira numa profusão de cores dignas do paraíso. Também os animais haviam ocupado os campos e os céus sobre estes, cumprindo as regras da Criação. Os cheiros, a medo antes da batalha e pútrido depois, do espaço, também fora substituído pelo aroma das flores.

A construção levava mais de trinta anos. Começara pela igreja, de três naves, com cem passos de comprimento e trinta de largo e cruzeiro, com a capela-mor de topo redondo, em pedras aparelhadas, angulares seria dito vezes sem conta nos sermões. Os quatro vitrais, no tardoz do altar-mor, concluídos havia cinco anos, mostravam os quatro evangelistas, representados num reticulado de cores limitadas pelo chumbo. A cobertura, em arcos, apoiava sobre pilares topejados por capitéis onde se materializavam estranhas criaturas andróginas. A altura da nave, de cinquenta varas de altura, estava fora da escala humana, mas o local destinava-se a uma relação com o altíssimo. Mais próximo do céu. A igreja fora orientada a nascente os ofícios da manhã eram assim multicolores, como os campos condizendo com a polifonia dos cânticos.

Justaposto à igreja nascera posteriormente um claustro, de cinquenta passos, quadrado, com um poço no meio onde a água era fresca, mesmo no verão. Além destes as celas, de cinco côvados por três, com uma janela, pequena e alta, inacessível, por onde entrava uma luz escorrida, como a humidade nas paredes e um ar gélido nas invernias.

As paredes, da igreja, estavam agora a ser pintadas. As imagens tinham que dar o dramatismo à homilia, únicas palavras que os comuns percebiam da litania. Isso e o ite, missa est final.

O irmão responsável pela distribuição das cenas, propusera-lhe a cena de Marta, a ocupadíssima dona de casa que pedira a Cristo que libertasse a irmã, da escuta da sua palavra para ir tratar do jantar. Olhou a sua porção de parede, recém caiada, húmida, preparou, com uma faca, o carvão e desenhou o esquisso. Já tinha preparado os pigmentos. Começou a imaginar todo o conjunto. Uma construção com um telheiro adossado, por onde andaria Marta e onde se veriam os restantes personagens. Um pátio, com um poço junto ao qual se sentaria o Mestre. O elemento água teria de estar presente. Maria estaria também próxima. Conseguia com este efeito potenciar uma segunda leitura, da pintura. Além de Maria, no chão sentados, estariam várias crianças, com a sombra de Cristo sobrepondo-se. Sobre toda a cena voaria uma pomba. Os personagens, em segundo plano seria onze, dos quais dez estariam de frente e um de costas para o observador. Marta estaria carregando um tabuleiro com cinco peixes e dois pães.

Agora vinha a parte mais difícil. Precisava de tempo e que Deus o inspirasse. Poria uma Marta cheia de travessas com ar duro? Ou apenas sofrido? E Maria? Com expressão sonhadora e sorridente de quem escuta mas não ouve? Ou séria de quem recebe uma bênção que poderá não merecer? Podiam ambas ser belas? Ou isso distrairia os crentes? E se Marta estava tão ocupada quantos convivas poderiam estar na sua casa? Seriam só homens já que só pediu apoio de Maria. Era um princípio, só teria de desenhar as duas mulheres. E que muitas coisas poderia Marta fazer em simultâneo? Teria de dar movimento à cena, ou a parte dela.

 

Fez uma pausa, veio ao adro da igreja e contemplou a paisagem. Um vento quente vindo de sul agitava a copas das oliveiras no ondulado do vale. Por entre os afloramentos das rochas um rebanho de ovelhas pastava. Mais ao longe viam-se os campos de trigo de onde vinha o pão que se comia dia sim dia sim. O céu estava a mudar de cor para escuro. Zacarias via esta composição de Deus num completo silêncio, aliás tudo era muito silencioso, havia dez anos. Acordara um dia assim, num inverno frio e húmido, quase surdo. Depois vieram as maleitas dos ossos que hoje lhe tolhiam os movimentos e em muitos dias o impediam de pintar.

 

O cavaleiro, alto e magro, apareceu sem ruido montando um cavalo negro de combate. Vinha acompanhado por um escudeiro que montava um burro.

O escudeiro apresentou o amo:

- D. Sancho, cavaleiro do rei berrou o escudeiro.

- E vossemecê? Qual é o seu nome perguntou Zacarias

- Mas chamam-me Pixote, por não ser muito alto.

- Percebo, não sei porquê, mas parece-me estranho.

- O quê?

- Os nomes, mas não sei dizer-lhe porquê.

O escudeiro ajudou D. Sancho a apear-se e preparou-se para levar as montadas para o pasto.

- Anda ronceiro. Disse chamando a montada.

- Podeis dar-me pernoita, por hoje? Vou a Trancoso, ainda são 50 léguas.

- Que ides fazer tão longe D. Sancho, se me permites a pergunta?

- Ver a minha dama, a minha doce senhora

- Dulce? Perguntou Zacarias pondo a mão em concha no ouvido.

- Doce! que o nome é Brites, é padeira…

Fazendo sinal com a mão para que o seguissem dirigiu-se à cozinha onde três frades se afadigavam com o jantar. O chão de lajes de pedra tinha um pequeno canal por onde corria água. Na chaminé central, cónica, ardiam umas brasas e num espeto sobre estas rolava um animal que ia sendo fustigado com uma giesta que molhavam num tarro com um líquido escuro. Numa panela com pés fervilhava água com couves e castanhas. Num canto vários odres de grande dimensão adivinhavam o sumo já fermentado das uvas.

- Sede bem vindo, partilhareis a ceia connosco.

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