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Quem conta dois contos

Quem conta dois contos

12
Mai20

1958

arp

Mesmo para 1958, o gabinete do director do jornal era relativamente pequeno, como o próprio. Pessoa de barba mal semeada, mas assumida, de óculos de meia-lua e cabelo a rarear colado à cabeça com fixador, vestia um fato de giz com brilho de uso. As faces encovadas sobressaiam sobre o papillon que usava em vez da gravata. No momento tinha os óculos sobre a cabeça e usava um cigarro aceso na mão esquerda para gesticular. O ambiente estaria empestado se a proximidade do trópico de Câncer não lhe permitisse ter a janela sempre aberta. Isso e a eventual necessidade de fuga de alguém que tivesse sido gozado pelo jornal. O seguro morreu de velho.

“Então quer ser nosso colaborador?” a pergunta foi feita quase de forma afirmativa, sabia que não podia recusar a colaboração de quem tinha sido recomendado pelo governador.

“É verdade” João, recentemente promovido a capitão, estava fardado e lacónico

“O senhor capitão tem experiência?” um sorriso aflorou-lhe os lábios

“Em jornalismo não, mas como o objectivo é de proporcionar notícias, trago um esboço de uma história” acabou a frase entregando umas folhas dactilografadas na sua Remington.

O director recebeu as folhas e desceu os óculos para os olhos e começo a ler. A dada altura começou a ler em voz alta:

…”ao final do dia a caravana chegou a um oásis. O ritmo lento do dia acelerou. O contraste bicolor de azul / Siena finou-se tendo à paleta acrescentado o verde das palmeiras com os seus salpicos acastanhados das tâmaras e o azul negrume da água. Ao lusco fusco começou o movimento dos homens levando os camelos e os dromedários para beber e das mulheres organizando os recantos das famílias. As crianças enfiaram-se dentro de água molhando-se com salpicos. No poço uma fila organizara-se para recolher a água para as refeições. O silêncio do dia tinha acabado. Sim o deserto é também silêncio. O reflexo da lua era agora visível no espelho de água. As falas, poucas, que os Tuaregues não desperdiçam água nem palavras, ouviam-se sobrepostas ao crepitar dos lumes feitos para as tagines. O rebanho fora afastado e libertava uns balidos que iam reduzindo de volume. Por fim começaram a libertar-se os aromas, as especiarias nas tagines tinham começado a cumprir a sua função menor…”

O director levantou a cabeça, pousou as folhas na secretária atafulhada com dezenas de outros papéis, sem qualquer arrumação óbvia, repuxou os óculos para a testa e coçou o nariz.

“Sabe capitão, jornalismo não é romance. Falar da lua falam os poetas e os astrónomos – remexeu-se na cadeira – o que o senhor escreveu é um esboço literário, não uma peça, um jornalista tem de contar uma história e em duzentas palavras, quando muito e o senhor ou tem muito boa memória ou tomou boas notas, coisa muito importante num jornalista”

“Tenho boa memória, fotográfica”

“Quem primeiro discorreu sobre a memória não foi nenhum psicólogo, foi Camões”

“Camões?”

“E do bem, se algum houve, a saudade”

“Estou a ver, mas, bem, há jornalistas que escreveram romances…” foi interrompido

“Quem, o Hemingway? Esse comunista? O que ele escreveu, por exemplo no Fiesta, é um artigo jornalístico, longo, demasiado longo” pontuou a frase com uma coçadela na barba.

“Bem ganhou o Nobel”

“o que ele ganhou mesmo foi o Pulitzer, o Nobel dão a qualquer comunista”

“Não se enerve, senhor director, não se enerve” João tinha indicações explicitas para não sair do jornal sem o lugar.

“Um artigo de jornal é algo que tem de ser contado em mais que um sintético telegrama e menor que um conto infantil” usou do indicador para apontar um quadro imaginário onde esta evidência estaria aposta.

“No fundo o senhor quer textos que possam ser lidos por qualquer um, num espaço de tempo curto”.

“Na casa de banho, na casa de banho”.

“E o estilo? Quer uma coisa impressionista, como na pintura, esfumar ligeiramente os factos, mas acrescentar-lhe cor, ou tipo a exagerar, quase caricatura neorrealista ou cubista, que não terá nem a forma nem a cor da realidade e que cada uma pode interpretar à sua maneira, ou distorcendo a realidade

“Estou a ver que tem sentido de humor” o tom era de irritação contida.

“Sabe que contar uma história em três minutos só mesmo os poetas conseguem, e de preferência com música, numa canção”

“bom, vamos experimentar, começa com uma coluna sobre a nossa identidade” um sorriso perpassou-lhe nos lábios

 

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