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Quem conta dois contos

Quem conta dois contos

10
Out19

2083

arp

Anoitecera cedo naquele dia invernoso. J. regressava a casa, trazia o carro, eléctrico, carregado de comida. Vegetais entenda-se. J. nascera muito antes, na era proibida. Numa era em que era legal comer carne e em que os motores a combustão ainda existiam. Hoje, depois dos éditos do banimento, só se podia comer vegetais. Mesmo as crianças tinham sido proibidas de comer carne. O leite só era legal até ao 2 anos de idade da criança e era preciso que existissem vacas que aceitassem ceder o leite para o efeito. Era chamado um intérprete que comunicava com o ruminante e conseguia informar a psp (policia sensibilizadora do povo) da aceitação. Assim, quem transportasse o leite, teria um livre-trânsito para poder circular livremente.

No ano da abolição, foram desmantelados 10 mil milhões de veículos. E em seis meses as emissões de CO2 foram reduzidas a quase zero. A pedra de toque foi a reinstituição da pena de morte para quem emitisse mais que 10 gramas por ano de CO2. Ao fim de um ano já eram visíveis os resultados: as plantas não cresciam, as zonas desérticas foram ampliando os seus territórios, o desaparecimento do gado acabara com os adubos pelo que os solos ficaram pobres, posteriormente esqeléticos pela erosão.

A comida tinha de ser importada dos países que não tinham aderido ao pacto climo alimentar.

O último dos talhantes portugueses, da remota Vila Nova de Foz Côa, fora linchado por uma população enraivecida. Não se sabia se a raiva era por ele vender carne, se foi a demência por abstinência.

As barragens tinham sido todas abertas. As alterações climáticas fizeram-se sentir seriamente. Cada pessoa tinha hoje 2 litros de água por dia, para beber, cozinhar e lavar-se.

Não havia novos satélites por não ser tecnicamente possível colocar foguetões no espaço com motores apenas elétricos. Com a obsolescência dos satélites as comunicações falhavam até serem apenas uma remeniscência do passado.

Passados poucos anos o mundo tinha retrocedido, alterado segundo a lingua permitida, o veganês. Tecnologicamente era comparável ao nível dos anos 40 do século XX.

A linguagem também tinha evoluído, era o que diziam. Já não se podia dizer carne da minha carne por exemplo. O próprio termo carne havia sido eliminado do léxico legal (LL). Assim, hoje dizia-se pip da minha pip.

Mesmo na área vegetal nem tudo era aceite. O feijão por exemplo, que consideravam fazia emitir metano aos humanónos. Sim, hoje eramos humanónomos.

Mas J. era o chefe da resistência. Era um enorme risco, mas estava disposto a corrê-lo. Já haviam passado 40 anos desde que os resistentes tinham voltado a comer carne. Nesse espaço de tempo alguns tinham sido apanhados. Quando havia dúvidas, eram arrastados à força até um hospital militar onde era feita uma ressonância. Esta provava que tinham um cérebro maior que os vegan. Era feito um julgamento sumário e desterrados para ilhas remotas de onde não saíam. Suspeitava-se que alguns tinheriam sido abatidos.

O ensino tinha sofrido uma reforma, as aulas de português tinham sido substituidas por inclusivês, uma das grande conquistas era o ensino da gaguês, tinha-se invertido a lógica, não fazia sentido tentar que os gagos perdessem a gaguês quando era muito mais fácil por os falantes a gaguejar. De igual modo as aulas de educação física eram para a prática do coxear.

Ao princípio alguns professores haviam-se rebelado, mas umas greves estudantis pró clima e outras anti sistema, bem como o saneamento liminar dos corpos docentes haviam resolvido o problema. Hoje o ensino era muito simplificado. E havia sinergias, o curso de medicina havia sido fundido com o de linguas modenas por exemplo.

As igrejas, todas, havia sido fechadas durante umas décadas. Apenas na última década havia reaberto votadas aos novos deuses. Os antigos Jerónimos eram hoje dedidados ao nabo, o deus supremo, outas a deuses menores como a cenoura ou o tomate.

Também tinham começado a colocar uma corgete nas salas de aula, em substituição dos antigos crucifixos.

Os resistentes eram os únicos que tinham a capacidade de constatar que "os outros" tinham agora um olhar bovino. Certamente por tanto pasto que comiam. É certo que era ilegal possuir, divulgar, ou promover fotos ou quadro de vacas ou outros ruminantes, mas havia algum tráfico como outrora com as drogas, hoje todas legalizadas.

Mas hoje era um dia especial. Tinham conseguido passar as seguranças todas e haveria um jantar especial. O encontro era num edifício abandonado onde outrora havia uma exploração de vacas. Era um edifício proscrito e tinha várias vedações e tabuletas, como as antigas zonas radioactivas. De tempo a tempo, passavam uns detectores de metano para saber o nível de perigosidade. Haviam passado 60 anos desde a última vaca e o nível de metano ainda era considerado alto.

No papel que havia sido distribuido pelos resistentes, constavam apenas as seguintes palavras:

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Entrada: melão  com presunto crocante

Sopa: do cozido

Prato de resistência: cabrito assado

Queijos de leite e coalho

Sobremesa: pudim abade de priscos

Por fora a casa parecia assombrada, mas por dentro estava tudo como no século XX. E todas as semanas vinham uns resistentes repor os stoks.

A revolução estava em marcha...

 

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