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Quem conta dois contos

Quem conta dois contos

05
Abr19

O racionalismo dialético

arp

Aterrara naquele dia de 2050 no aeroporto de S. Francisco. Fora a primeira vez que voara num avião totalmente robotizado. Sem pilotos e sem hospedeiras. As refeições a bordo tinham sido simplificadas e era um robot da geração 3.5 que as distribuía. A visão para o cockpit era total, um vidro à prova de bala mostrava a frente do avião onde nenhum humano era necessário. A entrada para o avião havia sido conduzida através de um holograma representando o presidente da companhia que recebia cada um dos passageiros. Para se viajar mais leve e célere, as bagagens iam noutro voo ainda mais automatizado.

Os protocolos no aeroporto haviam sido despachados em minutos, passara num túnel detector.

- Mas aqui detectam o quê? Perguntou ao companheiro de viagem que lhe saíram em sorte.

- Droga, metais, até de mau feitio dizia-lhe com bom humor. Para a próxima trago a minha sogra para ver o resultado.

A fila dos táxis à porta do terminal também era estranha. Os carros estavam lá, alinhados, amarelos como sempre, mas sem ninguém ao volante. Nem sequer, como era norma, em pé encostados indolentes ao carro conversando sobre a vida. A cidade perdera centenas de filósofos. Onde estavam os homens que reflectiam profundamente sobre o deficit, os eleitos, o preço da gasolina ou o futebol?

Quando chegou a sua vez a porta do carro abriu-se automaticamente e ouviu uma voz metálica em português:

- queira sentar-se, deseja ir já para o seu hotel?

- sim – gaguejou, mas resolveu não dizer mais nada, para ver o nível de conhecimento do sistema.

- olhe bem para este pacóvio! Já viu? Não sabe guiar. A carta saiu-te na farinha Amparo?

- Não estou a perceber?

- Resolvemos dar um toque lisboeta para se sentir em casa.

Chegaram ao hotel, sem nunca ter furado um semáforo ou ultrapassado um limite. Pelo caminho até ao centro passaram por um enorme acampamento onde pessoas, quase espectros, se aqueciam à volta de latões onde crepitavam fogos.

Chegou ao hotel onde foi recebido por um robot andrógino humanoide que o recebeu à porta do táxi. Entrou e tinha finalmente um ser humano atrás de um balcão convencional.

- boa tarde, bem vindo ao hotel Lisboa!

- Mas não era S. Francisco?

- O nome muda com o cliente. Já sabemos que ficou incomodado com a travessia do bairro H, a sua expressão traiu-o, é a informação que consta neste momento da sua ficha. Isto além de que gosta do gim com hortelã e torradas de pão de centeio.

- Estou a ver que sabem muita coisa

- Esperamos saber tudo sobre os nossos clientes.

- De facto fez-me impressão a quantidade de desempregados…

- Sabe, a sociedade está em transformação, estamos em fase de adaptação. Há contudo pessoas que não se adaptam. A evolução acabou com várias profissões.

- Por exemplo?

- arquitectos, médicos de clinica geral, juízes, advogados e políticos naturalmente.

- Como?

- Bom, se precisar de um projecto um computador consegue fazê-lo melhor que qualquer humano, um julgamento é feito sem erros. Foi construída uma base de dados com toda a legislação e todas as penas aplicadas desde 1863. Conseguimos um julgamento completo em três minutos e oito segundos, em média claro.

- E os políticos?

- Não existem. As pessoas cansaram-se da corrupção, das agendas dos partidos, enfim, da politica ficámos só com o melhor. As pessoas votam em programas que são gerados por várias main frame, em função das, ainda, poucas faltas que possam ser sentidas. As pessoas votam e o programa é feito cosendo as várias propostas

- mas costuma haver propostas perfeitamente antagónicas

- isso é teatro politico. Acabámos com isso. Trata-se de política não utópica. Distópica se quiser.

- Mas o que farão no futuro esses desempregados?

- Estamos a tratar das imigrações. Para países mais atrasados.

- Mas a imigração sempre foi para países mais ricos e desenvolvidos.

- Mas aqui estamos no futuro…

O quarto tinha um aspecto “normal”, mas pensou se os quartos não seriam todos diferentes e eram atribuídos em função do perfil do cliente.

Era domingo, resolveu ver se havia um serviço religioso. Fez a pergunta à assistente digital. Deu-lhe uma morada e uma hora. Era perto, resolveu ir a pé. A igreja era um edifício todo em vidro, o oposto do que sempre foram as igrejas, locais de recolhimento, de reflexão, de intimidade. Aqui a exposição era total. O eterno cheiro a pedra, velas queimadas e humidade, omnipresente em todos os templos do mundo, foram substituídos por um aroma a madressilva. A renovação do ar era garantida a oito ciclos por hora – facto garantido num cartaz afixado na porta, no lugar onde, em igrejas de outras geografias estava afixado o horário das confissões. A celebração ia começar, a igreja teria umas vinte pessoas. Não havia juventude, o nível etário era elevado.  Estariam uma vinte pessoas.

Perfilou-se esperando a entrada do pastor. Do chão saiu um holograma com uma forma humanoide que, em quinze minutos e dezoito segundos cumpriu toda a liturgia. Não havia consagração, aguardava-se que um sínodo em Roma decidisse se a consagração, feita por um computador garantiria a transubstanciação das partículas.

- Acredita nesta fantochada? A pergunta foi feita pela vizinha de banco, olhando para os sapatos e sottovoce

- Como?

- Se acha que esta fantochada é uma missa?

- Bem…é…diferente.

- Eu venho aqui só para dar a quem aparece que há um movimento de resistência subterrânea. Olhe para baixo, não olhe para mim.  Lembra-se do 1984? Era uma brincadeira. Aqui é dos poucos sítios onde não podemos ser ouvidos ou filmados, pelo menos assim esperamos.

- Onde os posso encontrar?

- Decore esta morada. Quando for ter connosco deixe o telefone em casa, bem como o relógio e tudo o que for electrónico. Apanhe um táxi até ao museu de pintura digital entre, finja que vê as obras e depois saia pela porta a nascente.

- Pintura digital?

- sim, pintura produzida por  tintas sem cheiro, pixéis…Adeus.

No regresso ao hotel, sentiu-se febril. Resolveu ir a um hospital que vira no caminho.

Entrou e a urgência pareceu-lhe igual a qualquer outro hospital. O cheiro a éter, batas brancas, ruídos de tosses e choros de crianças. Depois de corridas as formalidades do costume acabou frente a um médico que olhava para um monitor. Descreveu-lhe todas as doenças que já tinha tido. Pediu-lhe que pusesse uma mão sobre um sensor, coisa que fez. Olhou-o nos olhos.

- o que vem um português fazer a este local?

- vim ver como isto funciona. Ou se funciona?

- o quê? A medicina?

- Tudo…

Baixou o tom de voz.

- Esteja atento e tome cuidado. Aqui não há problema, só lidamos com situações de emergência, ou urgência pelo menos. Coisas que não podem ser feitas por máquinas. Agora a medicina preventiva é gerida por computadores. Os diagnósticos são feitos por máquinas. Bem como a terapêutica. A medicação é dada em frascos brancos, onde os rótulos só dizem a quantidade e as horas das tomas. Se olhar à volta os pobres deixaram de procriar. Doentes com mais de 60 anos são tratados com palcebos e algo que tire as dores.

- O admirável mundo novo…

- Sim, não é mesmo para velhos.

Acordou sobressaltado. Adormecera na espreguiçadeira que tinha posto à sombra do chaparro velho de 200 anos. Era a voz da mulher:

- Artur! Ligaram da taberna. Estão à tua espera para o jogo…Não te esqueças de trazer os enchidos para o cozido quando voltares…

05
Abr19

dias de frio

arp

Resolvera aprender a tocar um instrumento para impressionar a Marta, do 6º ano. Tinha uns olhos verdes, sardas e uma cor de cabelo, sabia hoje, inspirara Ticiano. Tinha uma voz aflautada e umas mãos ridiculamente pequenas. Chegava à escola perfumada e deixava o corredor aromatizado, como quando atravessamos um campo de lavandas. Talvez fosse apenas imaginação.  Passara a semana seguinte  a ouvir With a litle help from my friends. Irritava-o o olhar condescendente da mãe que o olhava como quando se vê um filme pela segunda vez e se sabe o que vai acontecer em cada cena.

A sala de aula era virada a poente e ao final da tarde, costumava olhar o reflexo dela nas vidraças da janela. A luz encandescia-lhe o cabelo e via-se uma aura nesse reflexo.

Como dizia Vinicius “há tanto desencontro nessa vida”.

Fora há trinta anos. Não a conseguira impressionar, ou pelo menos não servira para ultrapassar o João do 7º C e as suas habilidades físicas.  Conseguia atravessar o pátio em pino. O facto de ele ter as piores notas em quase todas as disciplinas não diminuía o seu sucesso. Nem o facto de fumar, ou provocar brigas frequentes. O jovem ser humano, em particular o feminino era estranho. Era atraído pelo abismo.

Resolveu procurar outras notas. Começou pela guitarra. O professor que os pais lhe proporcionaram  tinha a casa cheia de instrumentos, facto que lhe permitiu experiências em todos eles. Era como se estivesse numa ocasião social e fosse falando com várias pessoas, de feitios e sensibilidades muito diversas. No piano, naturalmente, bem como outros instrumentos de cordas, mas o que acabou por levar a melhor foi o acordéon. Era demasiado grande, naquele tempo, mas os anos encolheram-no até conseguir uma simbiose perfeita. A escolha derivara de um disco, de vinil, de Astor Piazzolla. O facto de ser um instrumento fora de moda também não minorara a sua atractividade.

A casa era um amontoado de gravuras de quadros célebres pregados nas poucas paredes desprovidas de estantes. Era um caos organizado. O ambiente era intimista, com a luz coada por uns cortinados pesados e escuros, com umas ramagens em relevo num degradé de verdes

Hoje dava aulas, numa terra distante, onde a maioria das mulheres podia ter sido pintada por Ticiano. Perdera a Marta de vista no final desse ano longínquo, quando mudara de cidade. Tinha a agradecer-lhe esse companheiro inseparável com quem relaxava nos dias longos ou que o acordava da modorra nos dias curtos. Era uma relação estável neste mundo instável. Quando se sentia ansioso, agarrava a guitarra e tangia-a. Ao segundo acorde, essa conjugação que dava cor aos sons, já se abstraíra.

Os frios de longa duração neste local distante forçavam à permanência em casa e à introspecção. Com ela a música, a leitura, a escrita e a pintura. Ocupações dos solitários em zonas mais meridionais.

 

19
Fev19

o criminoso

arp

A economia clandestina sempre teve as suas regras. Em particular quando havia a transacção de produtos ilegais, perigosamente ilegais. Uma das regras era não delatar os locais de consumo nem os traficantes. F.  havia sido preso, estava sem dormir havia 36 horas, vestido apenas com uma T-shirte e uns calções, descalço sobre um chão de cimento húmido de uma cave fétida da polícia e enfrentava agora um interrogador. Não estariam mais de 10 graus. F. mantinha-se de pé com luzes apontadas à cara, enquanto o verdugo se escondia atrás dessas luzes, pigarreou antes de lançar de chofre: onde é que arranjaram o produto? Silêncio. Quem é que lhe arranjou os dois produtos? Silêncio. Foi o mesmo traficante? Silêncio. sabes (o tratamento por tu era inevitável num interrogatório) a pena que arriscas se não colaborares com a justiça? Eu não sei de nada! Não sabes de nada? Estavas ou não a consumir? Todo o teu covil empestava ao cheiro do produto a ser queimado...Estava, mas sozinho e era só para mim. Só para ti? Vais-me dizer que conseguias consumir um kilo? Sozinho? Não me faças rir.... Um kilo dá dez anos meu menino. Um kilo não é consumo, é para traficar (outro uso tipo era tratar o interrogado como se fosse um criança) Sim era tudo meu, tencionava consumi-lo todo, todo o kilo. E mais houvesse. Tu sabes o que o consumo faz? Sei, faz lindamente, pelo menos a mim. Já antes de mim o meu pai consumia e o meu avô também. A estes vi com os meus olhos. Cala-te. Ouviu-se o bater de um martelo na madeira da secretária. Novo pigarrear, escrivão: o réu dá-se por culpado, aplica-se o artigo 435 conjugado com o 2358 cujo cúmulo jurídico dá 10 anos de degredo. Ouviu-se de novo o martelo e a frase “o próximo”. Meretíssimo, não me foi dado advogado! O seu crime, de tráfico e consumo não permite julgamento à porta aberta nem advogado, o réu (desta vez já não era por tu nem por menino) o senhor (fora promovido) foi apanhado em flagrante a assar sardinhas, no carvão, a libertar dioxinas e a perseguir uma espécie protegida. “próximo”.

02
Fev19

o visitador

arp

Vou chamar-lhe José, podia, terá, certamente, outros nomes, mas hoje será José, nome com várias declinações ao longo dos tempos, desde o mais novo de uns maus irmãos no antigo testamento, ao Carpinteiro pai, mas hoje, ou ontem, ou na passada semana, José é visitador, visita presos numa cadeia uma das obras de misericórdia a que se impõe. Cada visita é um momento de observação e reflexão. Não interessa o passado, nem a ele, nem a nenhum dos visitados. Apenas o futuro. A prisão é como uma travessia num túnel do tempo, só se pode olhar para a luz no seu extremo. Os ruídos das portas ferrugentas a fechar e os aromas da comida sensaborona do refeitório, hão-de de ficar para trás, um dia. A prisão é um estado presente, não passado nem futuro, presente, que impede de ver quem se quer e quando se quer, da amante ao pôr-do-sol ou de ouvir um acordeão tocado por um cego numa qualquer esquina.

Quando saiu passou por um acampamento improvisado, de quem se tinha também deixado prender, pela pobreza, pensou que na próxima vinda faria a visita ali.

Quando voltou para casa e entrou no prédio visitou a D. Maria, do rés-do-chão, presa nas duas assoalhadas e no andarilho em que se deslocava havia 10 anos. Estava a apanhar o sol da tarde no pequeno pátio das traseiras. O muro alto não permitia outra vista que não a do seu reboco caiado. Teria pouco mais de 10 metros por uns quatro, como qualquer quadra de uma prisão. Queixou-se da vida, do corpo, do frio da noite e do futuro que não se afigurava radioso como aquela tarde.

Subiu um piso de escadas e ouviu vozes altercadas do casal Pereira. Iam para vinte anos de vida em comum, resolveu bater e conversar dois minutos, entrou, disfarçaram como puderam. A troca de banalidades correu costumeira, acompanhada de um café e de uma torta de laranja, numa parede um quadro cópia de um Mondrien geométrico, em cores de outras vidas, alegres, como a luz que enta por uma janela. Sempre que fazia esta visita lembrava-se do Rui Veloso “tantos dias tantas noites sem fazer uma loucura”

Jorge do segundo, preso nas suas rotinas e nas suas ideias, metódico, estava a sair, vestido como sempre, sandálias, jardineiras, barba desgrenhada. Nunca comia carne, nunca bebia álcool, não fumava. Cumprimentou e convidou-o a entrar para mostrar uma horta, biológica que estava a desenvolver na varanda a sul.

No terceiro andar Jeremias, constava que nascera de fato e gravata, sempre formal, estava também preso nas suas rotinas e ideias, mas achava-se totalmente diferente do Jorge. O facto de vestir sempre um fato de riscas, não o levava a perceber o seu estado de liberdade limitada

Lera uma vez, num autor russo, que as alegrias são todas iguais enquanto as tristezas são todas diferentes, cada um tem a sua própria tristeza que entendem não lhes poder ser tirada, ao contrário da alegria que se consegue tirar por vezes até com muita facilidade.

 

Finalmente chegou às águas furtadas que partilhava com dois outros o João que andava apenas nos romances que lia ou na poesia que escrevia ou Joaquim que ouvia música e compunha nele, nem gravidade o prendia ao planeta Apesar de a circunstância ser a maior prisão de todas, não deixava de ser um estado de espírito.

 

 

11
Jan19

a conferência

arp

Jorge estava sentado numa sala de tectos altos e paredes pintadas com florões intercaladas com portas recortadas de espelhos envelhecidos. O cheiro a cera acompanhara-o pelos corredores até ali. À sua volta os colegas, concorrentes, de todas as principais editoras. Estava lá o barbudo da editora Trotski, o careca da editora Gorki entre outros. Jorge sentiu-se dissonante. Como se fosse a um pífaro numa orquestra sinfónica, ou um clarinete num bando de adufes. O seu chefe recebera um telefonema do ministério convocando-o para uma conferência. Pedia-se discrição. O chefe disse-lhe que não tinha paciência, certamente não seria nada de importante, mas que considerasse a ida como a praxe de ter começado a trabalhar nessa semana.

Não conhecida ninguém pessoalmente pelo que se sentou na última fila. Via-se a intimidade dos presentes que cochichavam e libertavam pequenos risos acompanhados por vezes de palmadas nas costas.

Um contínuo abriu a porta e deixou passar a ministra da cultura, que anunciou em voz alta precedido de um untuoso Sua Excelência.

A ministra teria um metro e sessenta. Usava sapatilhas e o cabelo com um corte militar. Vestia de preto, calças e casaco.

“Bom dia, bem-vindos, bem-vindas, bem-vindes, agradeço a vossa vinda, como sabem a comunicação da verdade é plástica. Orgânica. Todos sabemos que não descendemos de Adão e Eva e isso basta-nos para questionarmos todos os escritos do passado.” Tinha uma voz de bagaço como se dizia no século passado.

Os presentes assentiam embevecidos, com sinais óbvios de cabeça.

“Importa reescrever a verdade, venho convidar-vos a entrarem no futuro, hoje. “

Sorrisos, piscar de olhos.

“Bom o que pretendo de vós é corrigir a escrita do passado de molde a educar os jovens para um futuro inclusivo. Assim, pretendo que arranjem escritores com capacidades e que façam as alterações nos livros que estão desactualizados. Tenho propostas para começarmos:”

“Retalhos da vida de um médico, por exemplo, não fala do SNS, temos de lhe mudar o nome e ajustar á nova realidade”

“mas o SNS não existia quando o livro foi escrito” a frase saiu a Jorge sem se aperceber.

Recebeu um olhar reprovador de todos os presentes e um trejeito de ombros de Sua Excelência.  Resolveu deixar seguir.

“Na mensagem, Pessoa não conhecia a realidade para que o PAN nos tem alertado. Não existem mostrengos, os animais são todos nossos amigos. Quero mostrengo substituído por mulherengo.”

“Camões tem que deixar de ser atiçador de pirómanos. No soneto onde diz que “Amor é fogo que arde sem se ver” a palavra fogo tem de ser substituída por povo que morre sem se ver”

Desta vez ouviram-se os primeiros aplausos e uns “muito bem” soto vocce.

“Naturalmente que também temos que retirar as Tágides do canto I dos Lusíadas são uma manifestação de um machista em relação à mulher. Esta visão tem que acabar da mulher objecto”

Uma voz esganiçada deu um grito de aprovação

“Também temos que alterar os autores estrangeiros. Frases como “O meu reino por um cavalo” não são admissíveis, estamos a dar um preço a um ser senciente. Como pensariam se fosse um filho vosso a ser valorado ?”

“O judeu de Bernardo Santareno –  Deve ser alterado para “o palestiniano”

“A arte de bem cavalgar em toda a sela não pode ser republicado. Os cavalos não foram feitos para ser montados. Quem pensava D. Duarte que era?”

“Rei?” Perguntou Jorge

“Não seu idiota, humano, com complexos de superioridade em relação aos outros seres.”

“Romeu e Julieta tem de ser totalmente reescrito. Trata-se de uma relação que tem de ser contextualizada. São ambos socialistas e as famílias são da extrema-direita conservadores. Romeu andava à procura da sua identidade e Julieta ajudou-o. O veneno era um destilado do carbono libertado pelas vacas. “

“Brilhante” ouviu-se

“O estrangeiro por exemplo bastará mudar o título para o migrante.”

“Para já começamos por aqui.”

Os presentes levantaram-se, aplaudiram sorrindo.

Jorge deu por si em casa à procura do passaporte.

 

08
Nov18

Bip

arp

Ano da Graça de 2025, ano 10 da web summit. O país estava digital, os médicos de familia eram agora virtuais. As queixas haviam desaparecido. Alfredo, imigrado no Zimbabué de Baixo havia 20 anos regressava à sua terra natal, Pias perto de Moura no Alentejo. Vinha de uma país e de uma experiência muito diversa. Pouco tecnológica. Assim que chegou, a mãe, comadre Ignácia, pediu-lhe que o acompanhasse ao centro de saúde. O edifício era novo, despovoado. Os utentes eram identificados pela impressão, digital, que impunham num artefacto logo à entrada. As portas abriram-se e ambos dirigiram-se a um gabinete para onde foi chamada Ignácia, a mãe. A voz da chamadora era metálica. A sala só tinha um robot estático um misto de chapa e humanoide. Qualquer coisa entre o Robocop e o Macaco Adriano. Sentaram-se

- Bip, dona Ignácia, hoje veio acompanhada, bip

- pois, vossemecê sabe como é, o meu Alfredo arregreçou lá das áfricas

- Bip, de que se queixa?

- Olhe dótor, tenho umas dores nas cruzes e ando enjoada, eu acho que é da vazia.

- Bip, não compreendo. Por favor soletre.

-Só leite?

- Bip, soletre. Cruzes? Não avalio religiões

- olhe lá nã é preciso ser empinado, tou-lha dizer que me doem as cruzes

- bip, por favor desloque-se ao hospital de S. João, Porto, onde há ainda médicos tipo 1

- Estás a ver filho, é sempre o mesmo. Olha este dótor não me receita, nem sequer me apalpa..é o mesmo com as comadres.

02
Nov18

escadas

arp

Viviam dentro de um grande edifício, como um centro comercial. O complexo estava estratificado por pisos. No rés-do-chão estavam as lojas mais básicas, as padarias, as verduras, o sapateiro. No 1º andar, ainda, os produtos básicos, como os talhos e as peixarias. No 2º andar as lojas de roupa barata. A qualidade e preço dos produtos oferecidos ia subindo com os pisos sendo no último o dos produtos de luxo. Os automóveis por exemplo começavam no piso 6 e acabavam no piso 25. Não havia elevadores e todas as escadas eram eléctricas. Não era bem assim, havia um elevador, que apesar de se saber da existência ninguém sabia onde ficava, mas constava que só trabalhava para os amigos dos gestores do complexo. Esses gestores, nos últimos anos, haviam invertido o curso das escadas e estas só desciam. Ao longo das escadas havia, contudo, televisões com incentivos à subida, mostravam carros fantásticos, e zonas paradisíacas. As televisões tinham uma grande definição e chegavam a emitir cheiros. Através de uns pulverizadores, lançavam cheiro a maresia como quem vaporiza perfume, ou cheiro a cabedal quando mostravam um bom carro ou ainda o cheiro a bosque quando propunham umas férias na montanha. Mesmo as temperaturas eram alteradas local e momentaneamente, para avivar o desejo de uma praia ou de uma montanha nevada. Ouviam-se através dos altifalantes frases de incentivo “estás quase lá”, “mais um esforço e vais conseguir chegar ao automóvel dos teus sonhos”. Sempre que se ouviam essas frases as escadas aceleravam e começavam a descida mais depressa. Só para se manterem no mesmo lugar já havia que fazer uma corrida sobre-humana. Muitos desistiam e pura e simplesmente eram levados para baixo até ao rés-do-chão. Também havia uma cave, mas dessa então ninguém falava e menos ainda os gestores do complexo.

De tempo em tempo um robot passava e oferecia um brinde, um fato de desporto para correr melhor escada acima, mas mais correntemente desodorizantes para que no esforço não emitissem odores desagradáveis para os gestores do complexo e seus amigos.

A música e os incentivos mudavam conforme o patamar. Começavam com música popular e frases simples do tipo “já viste que estão todos a comprar no piso de cima?” até, nos pisos 20 a abertura 1812 e uma frase blasé “quê? Ainda não tem um iate?” o próprio tratamento já não era intimo, por tu.

Feliciano corria pela escada entre o 3º e o 4º piso e, no meio de todos estes ascensores vivos, começou a interrogar-se sobre o passado e o futuro. A interrogar-se e a interrogar os que por ele passavam ora descendo ora, em esforço, subindo. As televisões tinham contudo dois sentidos, coisa que acontecia desde 1984. Os controladores dos gestores do complexo ouviam e reduziram um pouco a velocidade descendente daquela escada. Apenas dessa escada. Feliciano convenceu-se que era possível vencer a escada afinal. E começou ele mesmo a incentivar os que o seguiam. Ouvida a resposta, os controladores aceleraram ligeiramente a escada e quando ouviram Feliciano a dizer “não liguem a este pequeno contratempo” perceberam que podiam acelerar de novo a descida.

Só Francelino, engenheiro, calado e taciturno se foi apercebendo de várias realidades. A primeira é que as escadas não tinham motores, de facto eram eles que correndo as faziam andar. Certamente estavam a produzir energia para alguma coisa. Também percebeu que se todos parassem o movimento perpétuo estancaria. Talvez irreversivelmente e em vez de andarem a produzir energia para os gestores do complexo consumirem, podiam consumir para eles próprios. Também viu que um cabo saia para umas portas metálicas. Certamente também estava a produzir energia para que os amigos dos gestores subissem no elevador.

Sentiu sobre ele uns olhos electrónicos, desconfiou e baixou a cabeça. Colocou a mão direita no corrimão e sentiu uma descarga naquela fracção de segundo, antes de se apagar percebeu que não havia saída para ninguém. Morreriam a tentar subir ou morreriam porque teriam percebido.

02
Nov18

O museu

arp

 

Quico entrou pela mão da mãe que lhe dava sempre, uma enorme sensação de segurança. Talvez por ser tão grande, por cheirar a sabonete. Como a roupa que sentia macia e quente. Hoje, tinha-lhe dito, iria educar-lhe a vista e o espírito. No hall a mãe mandou-o tirar o casaco enquanto pagava os ingressos. Pouca gente estava àquela hora no edifício.

Sentou-se à frente do quadro num banco sem costas, de madeira, que teria já servido a centenas de observadores. A temperatura era demasiado baixa para um dia de verão e sentiu um arrepio. Começou a olhar para o quadro com a sensação de que estava a olhar pela janela de casa.

Um pouco mais longe uma parelha pastava à sombra de outro monte de palha.
Só que em vez do quintal da D. Fernanda onde se espreguiçava o Padoque e onde via a roupa a secar ondulante nos dias de vendaval ou a rua estreita das traseiras, onde o sol nunca entrava ou ainda o prédio cinzento e triste da frente, onde morava a Teresinha sardenta das tranças ruivas, via um campo, no que imaginava ser o Alentejo. Lembrava-se do fim-de-semana em que fora, com a mãe, ao Alentejo a uma casa fresca e branca num dia abrasador e azul. No quadro, o calor era intenso e a paisagem era seca e amarela. Um casal, certamente após um almoço, fazia a sesta à sombra de um enorme monte de palha. Uma cama improvisada no restolho do campo, duas foices e um par de sapatos que o homem abandonara era todo o património do casal. Uma ligeira brisa agitava o restolho nesta paisagem bicolor onde o amarelo do campo e das peles contrastava apenas com um céu da cor das roupas.

Pressentia o cheiro a feno e pó e essa memória tornou a visão ainda mais real As feições do homem estavam encobertas por um chapéu que lhe descaía sobre um rosto sem barba numa cabeça recostada sobre uns braços cruzados atrás dela.

Continuou a olhar e apercebeu-se que o peito da mulher subia e descia, compassadamente ao ritmo da respiração. Ela estava viva! Era real! Depois a sesta acabou e o homem espreguiçou-se sentando-se. O chapéu caiu-lhe e uns olhos castanhos sob umas sobrancelhas intensas abriram-se fitando-o. Como era possível tal coisa?

Os sapatos, o homem calçou os sapatos. Viu-o enrugar a cara quando se calçou, pelo esforço ou pelo cheiro que deles emanava. A mulher também se levantou, sorriu cúmplice para o homem (só podiam ser namorados, ou amantes) deram as mãos e começaram a andar pela tela até à moldura. Quico susteve a respiração. O casal desatou a correr e desenhou um salto para fora. Os olhos castanhos pestanudos abertos até mais não poder, o indicador esticado, a boca aberta sem que as palavras saíssem, a outra mão puxando a saia da mãe que o ignorava. Olhou para a mãe implorando atenção. Quando olhou de novo o casal tinha entrado numa pintura toda ela quadrados. Começaram a transformar-se. As cabeças eram agora quadrados, os narizes triângulos, numa explosão de todas as cores do arco-íris.

À medida que mexia a cabeça via o casal a mover-se no meio dos círculos, dos quadrados e dos triângulos. Continuou a olhar fascinado. O casal desatou de novo a correr e deu um novo salto. Agora aterrou no meio de uma dança. Despiu as roupas e deu as mãos às restantes dançarinas. Quico ouvia nitidamente a música. O ritmo ia aumentando e os dançarinos iam rodando cada vez mais depressa. Finalmente caíram no chão exaustos.

- Quico! O museu vai fechar. Vamos embora disse a mãe.

- Mãe sabes que eu vi um casal que estava num quadro a saltar para outros quadros e a mudar de cor e de forma?

- sim, sim disse a mãe pouco convicta. Em casa contas-me.

02
Nov18

As cadeiras

arp

 

 

O jogo era simples. Desde que se lembrava que via as crianças a correr à volta de um monte de cadeiras ao som de uma música. A música era sempre sincopada, como os viras ou as canções de embalar. Quando a música parava as crianças rindo corriam a sentar-se nas cadeiras. Havia sempre uma cadeira a menos e sucessivamente iam-se eliminando jogadores até que ficava só um  - o sorridente e vitorioso. Por norma o jogo das cadeiras indiciava o fim da festa e quando acabava as crianças, transpiradas, cheias de doces e felizes regressavam a casa.

Quando olhou a primeira vez nem viu. Depois quando se concentrou achou que alguma coisa não estava bem, mas também não percebeu logo. Andava distraído, como todos os passantes e absorto com a sua vida como todos os outros. Até que um dia, já cansado do ruído resolveu ver com atenção. Estava em curso um jogo das cadeiras, mas o número de cadeiras era idêntico ao do dos jogadores. A música repetitiva, com pouco ritmo e nenhuma harmonia parava de quando em vez. Os jogadores sentavam-se na primeira cadeira que apanhavam, mas havia assento para todos. A música, sempre a mesma, retomava e os jogadores voltavam a andar à volta. Como o ritmo era lento os concorrentes também não se apressavam não pareciam cansados e sobretudo não transpiravam. Apercebeu-se então que via estes jogadores havia anos. Eram sempre os mesmos. Haviam envelhecido, fisicamente já não apresentavam o mesmo brilho, os cabelos haviam embranquecidos. Em contrapartida as roupas e os adereços tinham passado a ser caros e sofisticados. Na mão seguravam porta-chaves de marcas de automóveis caros com que acenavam uns aos outros enquanto andavam à volta das cadeiras. Os fatos eram feitos por medida, bem como os sapatos. À muito que ignoravam os que lhes haviam proporcionado a entrada no jogo. Aliás desprezavam-nos mesmo com aquelas vidas simples e ridículas, sem a mínima noção de como se jogava.

Enquanto revia em que se tinha tornado o jogo começou a sentir uma enorme revolta interior. Olhou à volta e trocou olhares com os outros passantes. Bastou esse olhar. Pegaram numas bengalas que estavam à mão e começaram a correr com os jogadores à bengalada. Eles defendiam-se, mas eram muito poucos comparados com os que, como ele, estavam revoltados.

Após a  expulsão de todos os jogadores resolveram expulsar também os músicos e o arbitro do jogo.

Recomeçaram de novo, do nada. Novos jogadores, novos músicos, novo arbitro. Quando a nova música, com ritmo e harmonia começou a tocar, os novos jogadores correram, esforçadamente. Foram sendo eliminados e o jogo começava de novo, todos os dias, todas as manhãs, como o sol.

 

02
Nov18

o Carrossel

arp

 

 

O carrossel sempre fascinou as gentes. Primeiro as músicas, depois os cheiros da envolvente, as farturas, o algodão doce, coisas quase palpáveis, mesmo se fosse cego. O movimento das figuras e a possibilidade de as montar, os elefantes, os cavalos, mas sobretudo da girafa, enquanto se era observado, isso era a suprema glória. Desde pequenos que alguns investiam no carrossel. Faltavam à escola, deixavam de falar com os que se mantinham agarrados aos livros e aquela ocupação espúria de ler, escrever e contar. No carrossel começavam de baixo. Tentavam e conseguiam ocupar um lugar nas gigantescas chávenas que haviam visto no livro de desenhos do feiticeiro de Oz. Começavam então uma carreira. A primeira prova era conseguir andar revolteando e subindo e descendo sem enjoar. Repetidamente, sempre. Aos poucos dos leitores-contadores que se interessassem episodicamente pelo carrossel, era-lhes transmitido o enjoo que tal provocava e rapidamente desistiam voltando para sequências das suas actividades, mas leituras, mais contas…

A quem observava, de um ponto fixo, eles iam aparecendo e desaparecendo, mas nunca abandonavam o carrossel. Apenas mudavam de animal. Depois, quando já tinham intimidade com o cobrador dos bilhetes, pediam-lhe para por a máquina a rodar mais devagar e assim davam a ilusão, aos observadores, que havia tempos em que não estariam no carrossel.

Entre eles brigavam sempre pela girafa, por ser o animal que lhes dava maior visibilidade quando montado.

De quando em vez, mas muito mais quando do que vez, aparecia alguém de fora, que até estava habituado a montar. Cavalos a sério, por vezes mesmo elefantes. Aí começava a luta, que não conheciam as regras do carrossel que eles é que sabiam montar, que sempre montaram, de pequenos e que o carrossel não servia para quem andasse a montar coisas reais. Era só para quem sabia fazer de conta. De conta que sabia, de conta que faria…

Ai que um dia a música para.

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