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Quem conta dois contos

Quem conta dois contos

11
Jan19

a conferência

arp

Jorge estava sentado numa sala de tectos altos e paredes pintadas com florões intercaladas com portas recortadas de espelhos envelhecidos. O cheiro a cera acompanhara-o pelos corredores até ali. À sua volta os colegas, concorrentes, de todas as principais editoras. Estava lá o barbudo da editora Trotski, o careca da editora Gorki entre outros. Jorge sentiu-se dissonante. Como se fosse a um pífaro numa orquestra sinfónica, ou um clarinete num bando de adufes. O seu chefe recebera um telefonema do ministério convocando-o para uma conferência. Pedia-se discrição. O chefe disse-lhe que não tinha paciência, certamente não seria nada de importante, mas que considerasse a ida como a praxe de ter começado a trabalhar nessa semana.

Não conhecida ninguém pessoalmente pelo que se sentou na última fila. Via-se a intimidade dos presentes que cochichavam e libertavam pequenos risos acompanhados por vezes de palmadas nas costas.

Um contínuo abriu a porta e deixou passar a ministra da cultura, que anunciou em voz alta precedido de um untuoso Sua Excelência.

A ministra teria um metro e sessenta. Usava sapatilhas e o cabelo com um corte militar. Vestia de preto, calças e casaco.

“Bom dia, bem-vindos, bem-vindas, bem-vindes, agradeço a vossa vinda, como sabem a comunicação da verdade é plástica. Orgânica. Todos sabemos que não descendemos de Adão e Eva e isso basta-nos para questionarmos todos os escritos do passado.” Tinha uma voz de bagaço como se dizia no século passado.

Os presentes assentiam embevecidos, com sinais óbvios de cabeça.

“Importa reescrever a verdade, venho convidar-vos a entrarem no futuro, hoje. “

Sorrisos, piscar de olhos.

“Bom o que pretendo de vós é corrigir a escrita do passado de molde a educar os jovens para um futuro inclusivo. Assim, pretendo que arranjem escritores com capacidades e que façam as alterações nos livros que estão desactualizados. Tenho propostas para começarmos:”

“Retalhos da vida de um médico, por exemplo, não fala do SNS, temos de lhe mudar o nome e ajustar á nova realidade”

“mas o SNS não existia quando o livro foi escrito” a frase saiu a Jorge sem se aperceber.

Recebeu um olhar reprovador de todos os presentes e um trejeito de ombros de Sua Excelência.  Resolveu deixar seguir.

“Na mensagem, Pessoa não conhecia a realidade para que o PAN nos tem alertado. Não existem mostrengos, os animais são todos nossos amigos. Quero mostrengo substituído por mulherengo.”

“Camões tem que deixar de ser atiçador de pirómanos. No soneto onde diz que “Amor é fogo que arde sem se ver” a palavra fogo tem de ser substituída por povo que morre sem se ver”

Desta vez ouviram-se os primeiros aplausos e uns “muito bem” soto vocce.

“Naturalmente que também temos que retirar as Tágides do canto I dos Lusíadas são uma manifestação de um machista em relação à mulher. Esta visão tem que acabar da mulher objecto”

Uma voz esganiçada deu um grito de aprovação

“Também temos que alterar os autores estrangeiros. Frases como “O meu reino por um cavalo” não são admissíveis, estamos a dar um preço a um ser senciente. Como pensariam se fosse um filho vosso a ser valorado ?”

“O judeu de Bernardo Santareno –  Deve ser alterado para “o palestiniano”

“A arte de bem cavalgar em toda a sela não pode ser republicado. Os cavalos não foram feitos para ser montados. Quem pensava D. Duarte que era?”

“Rei?” Perguntou Jorge

“Não seu idiota, humano, com complexos de superioridade em relação aos outros seres.”

“Romeu e Julieta tem de ser totalmente reescrito. Trata-se de uma relação que tem de ser contextualizada. São ambos socialistas e as famílias são da extrema-direita conservadores. Romeu andava à procura da sua identidade e Julieta ajudou-o. O veneno era um destilado do carbono libertado pelas vacas. “

“Brilhante” ouviu-se

“O estrangeiro por exemplo bastará mudar o título para o migrante.”

“Para já começamos por aqui.”

Os presentes levantaram-se, aplaudiram sorrindo.

Jorge deu por si em casa à procura do passaporte.

 

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