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Quem conta dois contos

Quem conta dois contos

25
Fev18

a epidemia

arp

 

A epidemia

Por razões que só Deus saberia, mas que se prendiam, vagamente, com o facto de não ter pago a conta da electricidade, acordara sem televisão, sem rádio e sem telefone ou mesmo sem telemóvel já que não tinha havido energia para o carregar. No processo de acordar não houve interferências electrónicas, como o zumbido do telemóvel, ou mesmo o rádio emitindo um fado. Durante a primeira hora sentiu-lhe a falta de uma forma quase física, como se lhe tivessem tirado a cocaína e estivesse numa crise de abstinência. Sentia a falta de ter o telefone na mão, como quem deixa de fumar. Saíra assim de casa, numa manhã de outono, soalheira e multicolor. O chão estava atapetado em castanho e amarelo das folhas dos plátanos e dos castanheiros provocando um som característico de cre cre sob os sapatos mal engraxados. Espantou-se com esta realidade que, poderia garantir, ontem não estava presente. Todas aquelas folhas deveriam ter caído durante a noite. Foi assim andando até à paragem do autocarro, pressionando o tapete folhoso de formas diversas para conseguir sons também diversos. Nessa caminhada, sentindo a brisa levantar-lhe o cabelo como se de uma carícia se tratasse, foi-se cruzando ou seguindo outras pessoas. Estranhamente achou que não o viam. Era como se tivesse um manto de invisibilidade qual Merlim dos tempos modernos. Passavam por ele olhando apenas para as teclas dos telemóveis que batiam insistentemente. Ao cruzar-se com um tipo forte resolveu não se desviar. Bateram os ombros, mas o desconhecido de tão absorto não sentiu a pancada e seguiu o seu caminho. Na paragem do autocarro viu várias pessoas e leu-lhes o estado de espirito em função da velocidade e força com que matraqueavam as teclas do apetrecho. Viu uma mulher, jovem e bela, de cabelos loiros e curtos, com uns olhos castanhos semicerrados que “teclava” com os maxilares apertados. Via-se o esforço e a tensão nas saliências da face e na contractura dos ombros. Um homem de meia-idade, calvo, sorria olhando o telefone devia estar a manter um diálogo com uma conquista.

Toda a gente estava a viver o tempo presente num espaço futuro ou, no mínimo deslocalizado. Todos viviam uma realidade que o não era.

Tocou no braço da loira, mas não obteve resposta. Ninguém falava. Ouviam-se o som dos carros que passavam na rua e na sua intermitência do grasnido das gaivotas prevendo temporal.

Entrou no autocarro e sentou-se num lugar vazio. As janelas estavam abertas, alguns minutos depois sentiu um cheiro pestilento vindo da rua. Reparou que o lixo se acumulava no chão dos passeios e lembrou-se da notícias de uma greve na recolha. Retirou o lenço do bolso e tapou o nariz. Aparentemente os restantes passageiros tinham perdido do olfato.

O autocarro passou frente ao hospital psiquiátrico. Os doentes que deambulavam pelas passadeiras ou estavam parados nos semáforos pedindo cigarros, ou dinheiro para eles, desprovidos de telemóvel, de olhar perdido olhavam quem passava e franziam o nariz, desagradados com o cheiro que marinava no ar.

Por cima do ombro do vizinho de banco leu a frase escrita no monitor: “em risco de extinção um pássaro na amazónia”. O vizinho apressou-se a responder: “bora fazer uma petição, keres ajuda?”

Em todo o autocarro apenas ele e intermitentemente o motorista não estavam agarrados a um telemóvel.

Via-se quem tinha um novo. Olhava-o com o embevecimento bovino de quem olha para uma nova amante. Como outros homens, noutros tempos, também contavam as proezas que faziam com as suas amantes. Olhavam para o lado comparando o seu com o do outro e o diálogo era condizente, ouviu a conversa de dois vizinhos de banco: já tens o telemóvel x45? Não? Não me digas que ainda escreves no 44? Este ano já comprei três, o x42, o x43 e o x44.

Outro jovem meteu-se na conversa: “ já viu a autonomia do novo 46?”

Saiu do autocarro e no chão da paragem estava uma criança subnutrida com uns enormes olhos negros abertos em súplica silenciosa e com a mão direita vazia estendida, os clientes passavam ignorando-o.

Na montra de uma loja de telemóveis os écrans virados para o exterior davam a notícia de um escritor que havia ganho o nobel da literatura com um romance longo de três páginas.

Foi andando a pé pelo passeio sujo de papéis, beatas e latas de bebidas. Viu um infantário onde todas as crianças estavam sentadas no recreio olhando o seu telemóvel, tal como as educadoras.

Chegou à estação de comboios, embarcou no rápido da linha 2. Ouviu-se o assobio do guarda freios a composição estremeceu e arrancou. Abriu a janela para sentir o fresco e com ele entrou o aroma a flores e terra. O dia continuava soalheiro e multicolor, a harmonia das cores inspiraria pintores e escritores se houvesse quem quisesse usar os pincéis e as aguarelas ou os óleos ou uma caneta e um papel. Mas não havia, o efeito de contágio propagara-se globalmente e já ninguém se conseguia interessar pela realidade visível, próxima, palpável. Só era real o que passava pelos telemóveis. Mesmo a fotografia, como arte, desaparecera. Reparou que os “fotógrafos” só se fotografavam a si mesmos ou ao seu ego. Os jornais, haviam sido reduzidos para uma dimensão liliputiana, de bolso, não fora os receptores das notícias andarem sempre na mão e as “notícias” serem apenas as que podiam ser transmitidas em quarenta carateres a sua veracidade era irrelevante.

Ouviu então um som agudo, que lhe chegava ao cérebro abriu os olhos e viu que era o seu telemóvel que o acordava. Estivera a sonhar. Tivera um pesadelo, daqueles intensos, felizmente já passara. Pegou no telemóvel e viu as notícias do dia: fora apresentado o novo Pear 7, com maior autonomia e menor consumo. O Xp 8 fora declarado obsoleto. Fora dada a injecção letal ao homem que roubara o telemóvel do presidente. Levantou-se e foi fazer a barba com o telemóvel…

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