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Quem conta dois contos

Quem conta dois contos

02
Nov18

As cadeiras

arp

 

 

O jogo era simples. Desde que se lembrava que via as crianças a correr à volta de um monte de cadeiras ao som de uma música. A música era sempre sincopada, como os viras ou as canções de embalar. Quando a música parava as crianças rindo corriam a sentar-se nas cadeiras. Havia sempre uma cadeira a menos e sucessivamente iam-se eliminando jogadores até que ficava só um  - o sorridente e vitorioso. Por norma o jogo das cadeiras indiciava o fim da festa e quando acabava as crianças, transpiradas, cheias de doces e felizes regressavam a casa.

Quando olhou a primeira vez nem viu. Depois quando se concentrou achou que alguma coisa não estava bem, mas também não percebeu logo. Andava distraído, como todos os passantes e absorto com a sua vida como todos os outros. Até que um dia, já cansado do ruído resolveu ver com atenção. Estava em curso um jogo das cadeiras, mas o número de cadeiras era idêntico ao do dos jogadores. A música repetitiva, com pouco ritmo e nenhuma harmonia parava de quando em vez. Os jogadores sentavam-se na primeira cadeira que apanhavam, mas havia assento para todos. A música, sempre a mesma, retomava e os jogadores voltavam a andar à volta. Como o ritmo era lento os concorrentes também não se apressavam não pareciam cansados e sobretudo não transpiravam. Apercebeu-se então que via estes jogadores havia anos. Eram sempre os mesmos. Haviam envelhecido, fisicamente já não apresentavam o mesmo brilho, os cabelos haviam embranquecidos. Em contrapartida as roupas e os adereços tinham passado a ser caros e sofisticados. Na mão seguravam porta-chaves de marcas de automóveis caros com que acenavam uns aos outros enquanto andavam à volta das cadeiras. Os fatos eram feitos por medida, bem como os sapatos. À muito que ignoravam os que lhes haviam proporcionado a entrada no jogo. Aliás desprezavam-nos mesmo com aquelas vidas simples e ridículas, sem a mínima noção de como se jogava.

Enquanto revia em que se tinha tornado o jogo começou a sentir uma enorme revolta interior. Olhou à volta e trocou olhares com os outros passantes. Bastou esse olhar. Pegaram numas bengalas que estavam à mão e começaram a correr com os jogadores à bengalada. Eles defendiam-se, mas eram muito poucos comparados com os que, como ele, estavam revoltados.

Após a  expulsão de todos os jogadores resolveram expulsar também os músicos e o arbitro do jogo.

Recomeçaram de novo, do nada. Novos jogadores, novos músicos, novo arbitro. Quando a nova música, com ritmo e harmonia começou a tocar, os novos jogadores correram, esforçadamente. Foram sendo eliminados e o jogo começava de novo, todos os dias, todas as manhãs, como o sol.

 

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