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Quem conta dois contos

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02
Nov18

As Formigas

arp

As formigas

 

Tudo começou até pareceu de forma súbita, mas não foi assim, ao princípio as formigas eram organizadas, tinham regras, famílias, ocupações específicas. Havia eleições sempre que as dirigentes ficavam doentes ou morriam. É certo que cada uma tinha a sua vida, a sua alma gémea, os seus filhos, mas a organização, essa datava dos tempos em que ainda não havia nespereiras e que as corujas, que viriam a deter o conhecimento eram ainda uma aspiração se tivermos uma visão evolucionista.

O aparecimento das cigarras nas histórias de formigas é, como sabem, um assunto muito bem documentado. E a fama de umas e de outras também foi falado ao longo dos tempos. Contudo, ninguém esperaria que as cigarras viessem a dominar o mundo outrora tão organizado das formigas.

O processo demorou pouco mais de vinte anos. Vinte pequenos anos. O que são vinte anos na eternidade dos tempos? Em toda a evolução de uma espécie? Parece pouco, mas a transformação foi enorme.

A primeira coisa que as cigarras conseguiram, depois de muito se moverem, foi terem o direito a poderem ser eleitas, para as assembleias base, a mais baixa estrutura do estado formigo.

Para o governo-geral, que tinha de prover e distribuir a riqueza acumulada ao longo de cada ano pelos operários apenas as formigas e mesmo nestas não era para todas. Apenas as mais dedicadas à causa pública, que tinham provado ao longo de trinta formigos anos as suas capacidades e a sua seriedade podiam candidatar-se.

Num trabalho organizado, diríamos bem organizado, só que trabalho não rima com cigarras como sabemos. Chamemos-lhe “produção” conjunta das várias cigarras das várias espécies, que começaram a oferecer de tudo às formigas menos produtivas. Percebendo quais as fragilidades de cada uma das formigas frágeis, ofereciam empregos aos filhos, bónus às filhas.

Mais grãos de açúcar, mais asas de mosca, mais carcaças de gafanhoto. A beleza da coisa é que as “ofertas” eram feitas com os proveitos do trabalho das formigas trabalhadoras. Sempre que os proveitos não chegavam para a voragem a que se dedicaram pediam emprestado, ao BIF (banco inter formigo) que fiava.

A fase seguinte foi tentar recrutar gestores dos BIF e logo depois entrarem em paridade no BIF.

Depois começaram a cortejar as formigas. Com o tempo já eram convidadas para os almoços em casa das formigas.

Depois viraram-se para as escolas. Alteraram os manuais. A clássica estória da cigarra e da

formiga foi banida dos livros. Ocuparam todos os tempos livres das pequenas formigas, com

canções, rodas, corridas e tudo o que impedisse o tempo livre que daria rédea livre à perigosa ocupação que era o pensamento.

As obreiras foram desviadas da construção dos formigueiros e postas a construir alojamentos para as cigarras, sedes das cigarreiras e outras desnecessidades, de grande consumo de energia e de total inutilidade.

As notícias, que sempre no mundo formigo eram transmitidas por uma formiga que recitava alto à entrada de cada formigueiro, passaram a ser transmitidas exclusivamente por cigarras.

Que tinham melhor voz, que estavam habituadas a cantar. Claro que as notícias passaram a ser cantadas em vez de ditas. Mais uma vez a estratégia resultou. Passado pouco tempo já ninguém ligava ao conteúdo das notícias, mas apenas se eram bem cantadas. De quando em vez, quando havia escassez de asas de mosca ou quando um formigueiro desabava por ter sido projectado por uma cigarra, mandavam as cigarras das notícias desafinar. Promoviam debates sobre os desafinanços, castigavam quem havia desafinado, mandando-as para uma árvore com uma colmeia onde se tinham de alambazar durante dois meses. Todas cumpriam o castigo de forma exemplar.

As formigas eram seres religiosos. Sempre acreditaram numa verdade revelada. Acreditavam que muita senão toda a sua força vinha dessa verdade. A existência de um referencial do bem e do mal era o maior incómodo para as cigarras. Retiraram das escolas formigas os símbolos.

Imiscuíam-se nas jovens formigas e desvalorizavam a força da verdade substituindo essa verdade e esses tempos de reflexão por espectáculos. Tudo passou a ser espectáculo. E as formigas do espectáculo passaram a ser admiradas como se fossem sacerdotes. As que cantavam, as que jogavam birlas, as que representavam. Todas começaram a receber mais açúcar e mais asas de mosca que as que sempre lhes tratavam da saúde, ou as que projectavam, bem, os formigueiros, apenas as professoras continuavam a receber boas quantidades de açúcar. Não porque as cigarras respeitassem o ensino, mas porque precisavam da cadeia de transmissão que eram os professores mansos como joaninhas.

Foram criadas organizações, chamar-lhe-íamos empresas se não estivéssemos a falar de animais, comandadas naturalmente por cigarras que começaram a substituir as obreiras.

Depois, mesmo as leis, que sempre havia que melhorar, eram feitas em organizações de cigarras. Pagas a peso de asas de mosca.

Passaram vinte anos, parece que foi ontem. Hoje já não há exército, não há obras, mesmo as necessárias, nos formigueiros, por quem as sabia fazer ter sido desactivado e também por as formigas estarem à míngua.

Ontem começaram os motins. As formigas esfaimadas começaram a dar caça às cigarras. Estas tentaram recorrer ao exército, mas não havia exército, tentaram organizar as obreiras, mas não havia lideres. Tentaram apoio dos BIF, mas estes já haviam mudado o seu negócio para as carochas e as joaninhas (que não por acaso estavam a tentar mudar os seus programas escolares, ocupando as joaninhas 23 horas por dia, na hora restante iria ser implementado um extenso programa de leitura).

Enfim, vão ter que fugir. No próximo inverno, se não me engano irão bater o dente ao relento, terão fome e muitas morrerão. Salvar-se-ão, apenas, as que seguirem o novo governo das formigas…

 

 

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