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Quem conta dois contos

Quem conta dois contos

25
Fev18

dia de eleições

arp

Sábado, estava frio, mas sêco, saiu de casa cedo e resolveu tomar um pequeno-almoço na esplanada da avenida. Tinha um quiosque em frente onde podia comprar um jornal e, supremo luxo, um engraxador. Como sabemos um engraxador além de saber engraxar sapatos, usando a graxa e os unguentos certos em combinação com o ritmo da escova e do pano, tem de ser um filósofo. Se a cidade fosse mais pequena, para ter clientes bastar-lhe-ia estar actualizado com as cosquvilhices, como se fosse a D. Deolinda, mas numa grande cidade os temas a abordar tinham de ser mais abrangentes, teria de, por exemplo, tecer considerações sobre a urbe, como se comentasse o jardim do éden ou Campanela e o seu Sol na cidade. De um engraxador (como o termo foi utilizado ao longo dos tempos…) espera-se que tenha uma forte inteligência emocional que lhe permita ler, nas solas dos sapatos, novas ou rotas, se o seu caminhante está pronto para debater as teorias urbanísticas com o filósofo sentado ou se, pelo contrário, prefere falar da corrupção.

G. começou pela compra do jornal onde foi brindado com um “já viu o que aí vem?”. O banqueiro, de jornais entenda-se, oferecia aos clientes um toque de crise mesmo que o dia fosse de natal. O seu passado movimentado de ardina deixara-lhe a cabeça com uma pendência derivada ao grande saco, de pano azul, com uma só alça, onde transportava os diários, populares e de lisboa fizesse chuva ou sol “olhó diário populárió”. Não mudara de vida, nem de perfume já que da banca emanava o odor do papel tintado. Um cheiro constante, quer a notícia fosse do novo perfume quer fosse do encerramento de uma lixeira. Hoje às folhas já não se permitia usos menos nobres como enrolar robalos ou pescadas, espera-se que sejam recicladas e que o mesmo papel que ontem vendia um político, homem, hoje explique que afinal não era um homem político, mas uma deriva de Ícaro que subira e ardera.

A esplanada tinha cópias das antigas cadeiras de chapa com costas redondas de folha e braços igualmente redondos de tubo redondo, tudo pintado, ou despintado em bege, com o assento em ripas de madeira escura de mogno. As cadeiras casavam com mesas redondas, igualmente despintadas, de folha, que facilitavam a acústica aos talheres – ping.

G. mandou vir um café com leite – não, não é meia de leite, que quero mais de metade de café - e uma bola de Berlin, com creme. O aroma amargo do café quente misturava-se na proporção certa com o doce do bolo, como se tivesse sido misturada água quente e fria numa torneira.

Contemplou os passantes através do insipiente nevoeiro criado pelo centro de baixas pressões locais que era a chávena do café com leite.

A montra do café-esplanada possuía um vidro, semi-espelhado, que atraía os olhares dos passantes. Muitos não resistiam a compor a pose. Com o sol coado pela copa, agora acastanhada, do plátano que ainda não se despira, um raio de luz iluminava o quadro. Contudo os personagens eram mais dignos de Velasquez que de Rembrandt.

Ignorou o jornal que comprara e divertiu-se a ler as almas que passavam fugazmente. Aliás as notícias seriam certamente as esperadas. Todas as que o editor, pensasse que iria, ainda, influenciar os eleitores e assim a primeira página: “esperam-se manifestações de descontentamento (segue na página 4)” depois na página 4 via-se que o assunto era a Coreia do Sul, “o governo não deixará subir as pensões” (segue na página 21) na página 21 o tema era afinal a “subida” das pensões de três estrelas a hotéis de duas.

Um homem, de sessenta anos, ou perto, tirou um jornal e entregou uma nota ao jornaleiro, que lhe deu o troco com uma das suas tiradas, inaudível para G., mas certamente incompreensível para o comprador. O homem encolheu os ombros elevando o sobretudo bege. Virou costas ao jornaleiro e olhou o céu, numa prece muda ao deus da loucura.

Outro homem de cinquenta anos passou, olhando o espelho. Estava, via-se, contente com a imagem que criara. Vestira-se aprimoradamente, roupa justa do tipo que só serve a quem passa fome e cumpre horas penitenciais de ginásio em grande expiação. Vivia bem com a imagem, mas mal com a idade, via-se. Com uma dobra nas pernas das calças que lhe mostravam as canelas, sapatos longilíneos, pulseira e anel “moderno”. Tentava roubar anos à vida pensando, ingénuo que a enganava.

Passou uma mulher de, aparente, rara beleza. Aparente porque passou rápida, e sendo a beleza efémera, por definição, nos segundos desta passagem não se viam defeitos. Teria mais de um metro e setenta, ou seria oitenta? Vestia um casaco de lã amarelo ocre, ou seria castanho? e uns cabelos castanhos que enquadravam um rosto oval com uns intensos olhos verdes, ou seriam azuis? O mistério dessa beleza ficaria para a eternidade dos próximos trinta segundos no lobo temporal dos passantes. Sim, que a vida não é um filme e ninguém correu atrás da dita com um ramo de miosótis e uma deixa misto de humor e charme.

Uma mulher de fato saia e casaco espinhado, nos setenta, com o olhar vazio e o cabelo em desalinho apareceu vinda de não saberia onde. Olhava sem propriamente ver deslocando-se lentamente. Vários dos personagens da envolvente ficaram parados olhando-a. Esperavam em silêncio pelo próximo acto. Se fosse uma cena de cinema no enquadramento da câmara apareceria uma mão, depois um braço, que segurariam a senhora pelo ombro. Mas os filmes copiam a realidade e também aqui apareceu a mão e o braço pertencentes a um septuagenário, que com umas rugas de preocupação na testa, sobrepostas a uns óculos de massa graduados chamou baixo “Rosa, fugiste de novo”bebeu um gole final do café com leite, mas engasgou-se. Andando em sua direcção vinha um homem, com uma careca complexada já que só possuindo cabelos no tardoz da cabeça, usava-os compridos abaixo do pescoço. Trazia uns óculos de meia-lua na ponta do nariz e um livro na mão direita, suportados por um braço esticado ao nível dos olhos, era um personagem idealizado por Fellini. Ignorou o espelho. A personagem que encarnara era para ser visto e a e não para ver. Espanejava o livro como um pavão a sua cauda. A falta de umas pedras na calçada fizeram-no tropeçar, mas conseguiu manter a compostura, simulando uma mudança de página.

O dia ia subindo de tom e foi trazendo apetrechos ao bairro, o fim da manhã trouxe o vendedor de castanhas garantia outonal maior que a previsão meteorológica, como o som do amolador garantia uma semana chuvosa.

A cidade compõe-se destes sons e destes cheiros, não é só dos prédios e das buzinas vaticinou o filósofo para o novo cliente. Eram os sons e os cheiros da cidade.

G. levantou-se.

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