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Quem conta dois contos

Quem conta dois contos

05
Abr19

dias de frio

arp

Resolvera aprender a tocar um instrumento para impressionar a Marta, do 6º ano. Tinha uns olhos verdes, sardas e uma cor de cabelo, sabia hoje, inspirara Ticiano. Tinha uma voz aflautada e umas mãos ridiculamente pequenas. Chegava à escola perfumada e deixava o corredor aromatizado, como quando atravessamos um campo de lavandas. Talvez fosse apenas imaginação.  Passara a semana seguinte  a ouvir With a litle help from my friends. Irritava-o o olhar condescendente da mãe que o olhava como quando se vê um filme pela segunda vez e se sabe o que vai acontecer em cada cena.

A sala de aula era virada a poente e ao final da tarde, costumava olhar o reflexo dela nas vidraças da janela. A luz encandescia-lhe o cabelo e via-se uma aura nesse reflexo.

Como dizia Vinicius “há tanto desencontro nessa vida”.

Fora há trinta anos. Não a conseguira impressionar, ou pelo menos não servira para ultrapassar o João do 7º C e as suas habilidades físicas.  Conseguia atravessar o pátio em pino. O facto de ele ter as piores notas em quase todas as disciplinas não diminuía o seu sucesso. Nem o facto de fumar, ou provocar brigas frequentes. O jovem ser humano, em particular o feminino era estranho. Era atraído pelo abismo.

Resolveu procurar outras notas. Começou pela guitarra. O professor que os pais lhe proporcionaram  tinha a casa cheia de instrumentos, facto que lhe permitiu experiências em todos eles. Era como se estivesse numa ocasião social e fosse falando com várias pessoas, de feitios e sensibilidades muito diversas. No piano, naturalmente, bem como outros instrumentos de cordas, mas o que acabou por levar a melhor foi o acordéon. Era demasiado grande, naquele tempo, mas os anos encolheram-no até conseguir uma simbiose perfeita. A escolha derivara de um disco, de vinil, de Astor Piazzolla. O facto de ser um instrumento fora de moda também não minorara a sua atractividade.

A casa era um amontoado de gravuras de quadros célebres pregados nas poucas paredes desprovidas de estantes. Era um caos organizado. O ambiente era intimista, com a luz coada por uns cortinados pesados e escuros, com umas ramagens em relevo num degradé de verdes

Hoje dava aulas, numa terra distante, onde a maioria das mulheres podia ter sido pintada por Ticiano. Perdera a Marta de vista no final desse ano longínquo, quando mudara de cidade. Tinha a agradecer-lhe esse companheiro inseparável com quem relaxava nos dias longos ou que o acordava da modorra nos dias curtos. Era uma relação estável neste mundo instável. Quando se sentia ansioso, agarrava a guitarra e tangia-a. Ao segundo acorde, essa conjugação que dava cor aos sons, já se abstraíra.

Os frios de longa duração neste local distante forçavam à permanência em casa e à introspecção. Com ela a música, a leitura, a escrita e a pintura. Ocupações dos solitários em zonas mais meridionais.

 

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