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Quem conta dois contos

Quem conta dois contos

02
Nov18

escadas

arp

Viviam dentro de um grande edifício, como um centro comercial. O complexo estava estratificado por pisos. No rés-do-chão estavam as lojas mais básicas, as padarias, as verduras, o sapateiro. No 1º andar, ainda, os produtos básicos, como os talhos e as peixarias. No 2º andar as lojas de roupa barata. A qualidade e preço dos produtos oferecidos ia subindo com os pisos sendo no último o dos produtos de luxo. Os automóveis por exemplo começavam no piso 6 e acabavam no piso 25. Não havia elevadores e todas as escadas eram eléctricas. Não era bem assim, havia um elevador, que apesar de se saber da existência ninguém sabia onde ficava, mas constava que só trabalhava para os amigos dos gestores do complexo. Esses gestores, nos últimos anos, haviam invertido o curso das escadas e estas só desciam. Ao longo das escadas havia, contudo, televisões com incentivos à subida, mostravam carros fantásticos, e zonas paradisíacas. As televisões tinham uma grande definição e chegavam a emitir cheiros. Através de uns pulverizadores, lançavam cheiro a maresia como quem vaporiza perfume, ou cheiro a cabedal quando mostravam um bom carro ou ainda o cheiro a bosque quando propunham umas férias na montanha. Mesmo as temperaturas eram alteradas local e momentaneamente, para avivar o desejo de uma praia ou de uma montanha nevada. Ouviam-se através dos altifalantes frases de incentivo “estás quase lá”, “mais um esforço e vais conseguir chegar ao automóvel dos teus sonhos”. Sempre que se ouviam essas frases as escadas aceleravam e começavam a descida mais depressa. Só para se manterem no mesmo lugar já havia que fazer uma corrida sobre-humana. Muitos desistiam e pura e simplesmente eram levados para baixo até ao rés-do-chão. Também havia uma cave, mas dessa então ninguém falava e menos ainda os gestores do complexo.

De tempo em tempo um robot passava e oferecia um brinde, um fato de desporto para correr melhor escada acima, mas mais correntemente desodorizantes para que no esforço não emitissem odores desagradáveis para os gestores do complexo e seus amigos.

A música e os incentivos mudavam conforme o patamar. Começavam com música popular e frases simples do tipo “já viste que estão todos a comprar no piso de cima?” até, nos pisos 20 a abertura 1812 e uma frase blasé “quê? Ainda não tem um iate?” o próprio tratamento já não era intimo, por tu.

Feliciano corria pela escada entre o 3º e o 4º piso e, no meio de todos estes ascensores vivos, começou a interrogar-se sobre o passado e o futuro. A interrogar-se e a interrogar os que por ele passavam ora descendo ora, em esforço, subindo. As televisões tinham contudo dois sentidos, coisa que acontecia desde 1984. Os controladores dos gestores do complexo ouviam e reduziram um pouco a velocidade descendente daquela escada. Apenas dessa escada. Feliciano convenceu-se que era possível vencer a escada afinal. E começou ele mesmo a incentivar os que o seguiam. Ouvida a resposta, os controladores aceleraram ligeiramente a escada e quando ouviram Feliciano a dizer “não liguem a este pequeno contratempo” perceberam que podiam acelerar de novo a descida.

Só Francelino, engenheiro, calado e taciturno se foi apercebendo de várias realidades. A primeira é que as escadas não tinham motores, de facto eram eles que correndo as faziam andar. Certamente estavam a produzir energia para alguma coisa. Também percebeu que se todos parassem o movimento perpétuo estancaria. Talvez irreversivelmente e em vez de andarem a produzir energia para os gestores do complexo consumirem, podiam consumir para eles próprios. Também viu que um cabo saia para umas portas metálicas. Certamente também estava a produzir energia para que os amigos dos gestores subissem no elevador.

Sentiu sobre ele uns olhos electrónicos, desconfiou e baixou a cabeça. Colocou a mão direita no corrimão e sentiu uma descarga naquela fracção de segundo, antes de se apagar percebeu que não havia saída para ninguém. Morreriam a tentar subir ou morreriam porque teriam percebido.

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