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Quem conta dois contos

Quem conta dois contos

25
Fev18

fotografo

arp

Entrou na garagem que lhe servia de estúdio havia anos. Tinha colocado um cortinado de flanela preta encostado ao portão para travar a passagem da luz quando revelava. Apesar da tecnologia disponível não conseguia livrar-se do modo artesanal de produzir fotografias.

A vida tinha os seus tempos. Os dias, as estações do ano. Tudo tinha os seus tempos. A fotografia também. A vida também tinha sons e cheiros. Como num estúdio, mesmo improvisado. Os cheiros dos reagentes, ou dos cigarros das esperas. Do perfume das clientes. Do papel seco na esmaltadeira para lhe dar brilho. Hoje era tudo virtual, mesmo na vida muito era virtual. Os relacionamentos, os sentimentos.

Nascera noutro tempo. Numa época em que havia tempo. Hoje era como se a fábrica do tempo tivesse entrado em greve. Quando começara a tirar retratos as pessoas ainda frequentavam os cafés enquanto faziam tempo para irem trabalhar, ou a um concerto.

Nunca cedera a facilitismos como lhe chamava. Ainda usava a velha Nikon F e as mesmas três objectivas. Não possuía nenhuma zoom. Zoom? Zoom eram as pernas costumava dizer a quem lhe tentava impingir tecnologia.  

Para conseguir uma boa fotografia, um bom retrato como gostava de dizer, havia que captar a imagem, mas mais que isso: a essência do lugar, da pessoa, do tempo. A raiva do guerreiro num conflito ou o dissonante casal sem idade abraçado enquanto passava uma manifestação. Ou o homem em roupão, na varanda, de cabelo desgrenhado numa fachada geométrica e irrepreensível.

 Depois, bem depois começava pela extracção do rolo do seu invólucro, na escuridão total, como um cego, manipulando, encaixando o negativo no depósito. Havia que treinar.

Mas a verdadeira ciência estava no uso do ampliador, na escolha do tamanho e do enquadramento. No toque de magia que podia ser dado soprando o fumo do cigarro no feixe de luz para criar “um clima” ou no segundo enquadramento.

O olhar do fotógrafo era recriado, como aquele que transformara um tipo gordo e barbudo, num herói romântico ou o contrário. Um herói despromovido a incógnito barbudo.

O despontar, lento, do produto final no banho revelador. Era o momento de descobrir se conseguira captar uma alma como diziam os índios que não se deixavam fotografar. Por vezes era o contrário. A maioria das vezes. O olhar do fotografado ou mais frequentemente da fotografada é que lhe captavam a alma. Aprisionavam-na mesmo. Uns olhos, melhor, um olhar despejado sobre a câmara.

Por vezes só neste momento, literalmente revelador, se apercebia que estava desfocada. Errara na escolha da velocidade, o “objecto” movera-se. Ele movera-se. A terra movera-se. Podia haver poesia numa fotografia desfocada. Como quando queria transmitir o vento, ou o ritmo daquele casal que dançava tango na rua de Buenos Aires.

Captara o frio de ser capturado por beduínos no Saara e o calor numa vivência familiar num iglo. A inocência na idade avançada e a malícia na infância. O reflexo do castelo no lago e do terror nos olhos de quem sobreviveu a um terramoto. Até captara o som, ou melhor a música no cortejo com a banda. E a cor da noite num filme a preto e branco.

Hoje ia fechar o estúdio. As revistas que recebiam os seus trabalhos exigiram que trabalhasse em digital. Decidira reformar-se….

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