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Quem conta dois contos

Quem conta dois contos

25
Fev18

Medos

arp

Desde o dia em que Andreia nascera que o medo lhe condicionara a vida. O quarto, onde dormia com a mãe não era arejado com medo que apanhasse uma gripe. Tudo à sua volta era esterilizado com medo das bactérias. Escolheram-lhe um infantário onde não havia recreio, com medo não escorregasse e se magoasse. Nunca sentiu o vento agreste do inverno ensieirando-lhe os lábios, pelo medo que a mãe tinha das otites. Já na escola, as colegas, que amigas não tinha, chamavam-lhe medricas quando evitava saltar para as poças de água com medo de se molhar. Nas belas tarde de outono tremia com o ruído das folhas a serem esmagadas sob os pés das amigas. Não tomava banho nos balneários com medo de apanhar pé de atleta, única relação possível com o atletismo, ou mesmo com o desporto. Inventou uma doença de pele que lhe evitou as idas à piscina onde tinha medo de engravidar. Nunca namorou com medo de vir a sofrer. Na faculdade, não escolheu medicina com medo das doenças. Depois de se formar arranjou um emprego abaixo das suas possibilidades, mas perto de casa, tal o medo dos transportes públicos. Passado algum tempo já era gozada pelo chefe, mas não respondia com medo de ser despedida. Aos convites para almoçar dos colegas recusava delicadamente com medo da higiene dos restaurantes, ou da falta dela. Convites para o cinema metiam-lhe medo do regresso escuro a casa e como tal dizia não. Estes medos liam-se no tom marmóreo da pele, que não apanhava sol com medo das queimaduras, na voz trémula e fina, esganiçada mesmo, quando um estalido do soalho ou o ribombar de um trovão lhe descompassavam o coração, lhe gelavam o suor e lhe enfraqueciam os joelhos. Gostava de ver documentários de homens que cavalgavam ondas maiores que as montanhas ou que trepavam montanhas maiores que os oceanos. Mesmo no quente, seguro e limpo sofá tinha medo que alguém, por delírio a forçasse a fazer alguma daquelas coisas. Quanto finalmente completou trinta e cinco anos, convidou a única amiga para lanchar em sua casa. Andreia, disse-lhe, tu não vives, vegetas. E trocando-lhe o lugar da consoante, na palavra sempre tão ouvida “tens uma vida mesmo merdosa”. Que não, que era feliz. Nessa noite não dormiu, prescindindo do calmante. De manhã olhou-se ao espelho e disse bem alto: hoje mudo de vida! Vou ler um livro…

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