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Quem conta dois contos

Quem conta dois contos

03
Mai18

Moinhos

arp

Moinhos em terras baixas. O vento agreste, constante, vindo do mar do norte acalmou-o. Deixou que  o pensamento  andasse à deriva. O moinho era uma metáfora dele próprio. Andava à volta, mas não saía do mesmo sítio. Era uma ilusão de movimento. Virou a bicicleta e preparou-se para regressar à cidade. Os campos estavam repletos de túlipas. O primeiro campo era um mar de amarelo. Era uma área enorme de amarelo, por maldade, por erro, ou por gozo, alguém plantara um único bolbo de túlipa encarnada. Era uma abstracção, um erro. Como alguns de nós pensou. Era a diferença. Como tão bem descrevera Ionesco ou melhor ainda Kafka. Estava a sofrer uma metamorfose.

Sentia saudades do vento suão. Da paisagem quase desértica dourada. Do cheiro a pó dos caminhos e de todos os cheiros. Das lavandas no quintal vizinho. Do carvão quente à espera do peixe. Da cera nos soalhos. Da outra vida. Mais quente. Em todos os sentidos. Sobretudo no tacto.

À frente seguiam duas mulheres que pedalavam em silêncio. O único som era o do vento e da sua respiração ofegante. De tempo em tempo ouvia-se um gemido de uma das bicicletas.

As pessoas não têm histórias lógicas. Isso era apanágio dos romances e das novelas. Aí sim, há os maus e os bons. Por vezes mudam de lado, por vezes. Na vida real nada é preto ou branco. Há gradações, há cores, matizes. A maioria das pessoas atravessa a vida sem um rumo ou uma lógica definida. Essas histórias nunca são contadas. Não faz sentido a realidade. E o que não faz sentido não dá uma boa história. No fundo é como na pintura, ou na música. A vida não foi pintada por Miguel Ângelo. Nem por Leonardo. É uma mistura, entre expressionismo e cubismo. Entre a explosão de cores e a formatação onde acabamos inseridos. Metidos numa caixa. Não somos nós feitos em cubos. Somos nós metidos num cubo.

Continuou a pedalar, mas nada mudava. A paisagem mantinha-se, como o seu humor. Uma aparente mudança, o mar de túlipas ia mudando de cor. Como os homens, podiam mudar de roupa, mas a sua natureza não mudava.

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