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Quem conta dois contos

Quem conta dois contos

07
Jan18

o jogo

arp

Ensinaram-lhe, logo em pequeno, as regras do jogo. Lembrava-se como se fosse hoje. Havia sido o avô, homem de outro tempo. Com calma e bonomia havia começado: olha menino, este jogo é muito antigo, começou a Índia. Conta-se uma lenda sobre o seu inventor, um matemático. O marajá ficou tão encantado que lhe disse para pedir um presente. O matemático pediu coisa pouca: um grão de trigo pela primeira casa do tabuleiro, dois pela segunda, 4 pela terceira, 16 pela quarta e assim sucessivamente. O rei achou coisa de pouca monta. Até que lhe disseram a dimensão do presente. Bom mas voltando ao jogo: joga-se num tabuleiro, com 64 casas. Brancas e pretas, onde se movimentam ao peças. Cada jogador tem 16 peças: 8 peões, os que só se podem movimentar para a frente, um passo de cada vez, são em maior número e vão sendo dispensados ou dispensáveis. Se conseguires chegar ao fim do tabuleiro com um peão, podes trocar esse peão noutra peça, por exemplo, numa segunda rainha. Depois as torres, os bispos, os cavalos, a rainha e finalmente o rei. O objectivo é “matar” ou comer o rei. Explicadas as regras, numa tarde de domingo, teve início o primeiro jogo. Era inverno e o jogo decorreu na sala. A lareira estava acesa e ouviam-se os estalidos do lume. No ar pairava o agradável aroma a lenha misturado com o do arroz de pato e do leite creme queimado. O avô sentou-se no seu velho cadeirão, de cabedal gretado. Puxou uma mesa, pequena, para a sua frente e colocou-lhe em cima o tabuleiro, de madeira, onde as casas não eram brancas e pretas, mas cremes e castanhas. Sobre este foi colocando, devagar as peças, também elas de madeira esculpida. Deu as brancas ao neto para que este o imitasse. Ainda se levantou para ligar uma aparelhagem de onde se começou a ouvir a abertura 1812 de Tchaikosvky, suavemente, quase em surdina. Acendeu um cigarro que lhe foi ficando esquecido na boca e lhe foi amarelando, mais um pouco, o bigode. Encheu um balão com uma aguardente bagaceira e incitou o neto a fazer o primeiro movimento. A coisa durou até aparecer a avó, fazendo gemer as tábuas corridas do corredor, horas depois, lembrando que havia um lanche na cozinha. Não teria sido preciso a nota já que, ao cheiro do tabaco e da lenha da lareira sobrepunha-se, agora, o cheiro a torradas e ao café. O jogo foi interrompido e só recomeçou na semana seguinte, mas o tabuleiro estava como o haviam deixado. Durante alguns anos este ritual de domingo à tarde manteve-se. Só alterava o local do jogo: no inverno na sala, à lareira, no verão no alpendre, com vista para a serra e com o som dos pássaros em vez da aparelhagem. Tudo era imutável: a mobília, as loiças, os quadros, o velho piano desafinado, a música, o lanche. Um dia,  o avô, foi chamado a participar num outro jogo. Algum tempo depois também a avó foi chamada e a casa foi fechada definitivamente. Pediu então ao pai que jogasse com ele. O pai acedeu, mas o jogo parecia outro. O tabuleiro era de plástico, como as peças. O pai estava sempre desconcentrado ouvindo a televisão. Começou a ganhar cada vez com mais facilidade. Os jogos eram mais rápidos. Jogados sobre a mesa da sala de jantar. Se por qualquer razão não acabavam o jogo tinha de arrumar as peças na caixa até ao domingo seguinte. Faltava o cheiro do cigarro e do arroz de pato. Durante algum tempo ainda houve cheiro a lenha, mas depois vieram os aquecedores eléctricos, a óleo, e acabou o cheiro. O pai não tinha, ainda, as rugas do pai dele. Nem os óculos na ponta do nariz. O ambiente também mudava. Os sofás, os cortinados, até a mesa. Nada parecia permanente. A cozinha era de um brando hospitalar e ao domingo não era usada. Ao domingo almoçava-se fora, em restaurantes barulhentos onde se comia frango de churrasco ou bife. Uma vez pediu arroz de pato. Depois da primeira garfada teve vontade de chorar. Não podia ser mais diferente do que a avó que fazia. Também a cozinha, não podia ser mais diferente da de madeira da avó. O pai havia aprendido a jogar de forma básica. Não conhecia a defesa siciliana, nem os gambitos. No primeiro jogo caiu num cheque pastor. Esforçava-se um pouco, mas não era como o avô. Não tinha a semana toda para pensar no jogo. Enquanto esperada pelas jogadas olhava para as paredes que iam mudando de cor, primeiro branco, depois verde, depois amarelo e depois branco de novo. Tinha saudades do imutável papel de ramagens verde água e do tecto amarelecido pelos cigarros do avô.

Os anos foram passando e começou a jogar também com os primos. Com estes não havia dia certo, nem tabuleiro certo, nem lugar certo. A dada altura um deles apareceu com uma caixa que era um tabuleiro portátil, onde as peças encaixavam através de uns pinos para não caírem nem saírem do seu lugar. Começou a haver apostas. As apostas passaram a ser mais importantes que o jogo em si.

Passou tempo e tornou-se apenas num observador. A nova geração jogava, mas as regras foram-se alterando. Começaram por acrescentar casas. O tabuleiro já não tinha 64 casas, mas 80, ou noventa ou as que fossem combinadas. As peças movimentavam-se a seu belo prazer. Os peões eram os que tinham ganho mais movimentos. Tanto podiam dar saltos de cavalo, como deslizar como um bispo. Depois deixou de haver cores: os peões passaram a ser todos cinzentos. Depois também as torres e os cavalos. Um pouco depois também os bispos e mesmo a rainha. Finalmente o rei também ficou cinzento. A alteração final permitia que os peões fossem comprados. O jogo passou a ser confuso, não se sabia quem estava de que lado. Os peões começaram a ganhar vida. De repente já não eram imagens, falavam uns com os outros, reuniam-se em segredo, fora do tabuleiro e decidiam quem ia ganhar e quem ia perder. Houve um jogo em que o rei cinzento 1 sofreu xeque de um dos seus peões. Em quase todos os jogos os bispos eram atirados para fora do tabuleiro. Assistia a estas transformações com espanto crescente. Apercebeu-se que já só se jogava por dinheiro, quem tivesse mais dinheiro tinha mais peões, quem tivesse mais peões ganhava o jogo. Quando as torres ou a rainha atingiam as casas opostas eram trocadas por peões. Foi depois proposto que o jogo não tivesse bispos tendo estes sido substituídos por peões. Durante algum tempo alguns jogadores conseguiram umas jogadas extraordinárias movimentando as rainhas e as torres. Nalguns casos as rainhas ganharam vida e lutavam intensamente, também as torres. Depois os julgadores das regras entenderam retirar também as rainhas e as torres ficando só peões e reis. Finalmente o supremo juízo entendeu suprimir também os reis. Do jogo original nada restou, mas apenas uma pequena minoria sabia as regras originais. Costumava ir assistir aos jogos. Foi começando a olhar à volta tentando reconhecer quem conheceria as regras. Eram breves trocas de olhares primeiro. Depois uns piscar de olho. Finalmente umas trocas de palavras. Organizou um primeiro jogo. Havia-se mudado para a casa que outrora fora do seu avô. O tabuleiro e as peças de madeira estavam sempre sobre a pequena mesa. A sala encheu-se para ver de novo o jogo. Ele perdeu a primeira partida, empatou a segunda e venceu as três seguintes. A notícia começou a correr. Jogadores começaram a procurar  os seus velhos tabuleiros. Ao fim de um ano já se jogava nos jardins e praças públicas. O supremo juízo decretou que esse jogo já não era válido, mas ninguém ligou. Nos jardins passaram-se a ver-se idosos a jogarem com crianças à sua volta que iam aprendendo as regras. Passou a haver dois tipos de pessoas: as das antigas regras e as outras. Com o tempo o número das primeiras foi aumentando e os das segundas diminuindo. A sua geração voltou a reter as tardes de domingo para jogos com os netos. As vidas de avós e netos passou a ser vivida em função dessas tardes. Os jogadores dos tabuleiros cinzentos faziam protestos, diziam que só os seus tabuleiros eram legítimos. Continuaram, enquanto foram vivos, a jogar o jogo das peças cinzentas. Os  juízes supremos foram sendo substituídos e começaram a admitir o velho jogo. Voltou a vender-se o velho jogo. Os peões começaram a definhar e a mudar de cor, uns para branco e outros para preto. Havia quem dissesse que tinham passado à clandestinidade.

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