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Quem conta dois contos

Quem conta dois contos

02
Nov18

O museu

arp

 

Quico entrou pela mão da mãe que lhe dava sempre, uma enorme sensação de segurança. Talvez por ser tão grande, por cheirar a sabonete. Como a roupa que sentia macia e quente. Hoje, tinha-lhe dito, iria educar-lhe a vista e o espírito. No hall a mãe mandou-o tirar o casaco enquanto pagava os ingressos. Pouca gente estava àquela hora no edifício.

Sentou-se à frente do quadro num banco sem costas, de madeira, que teria já servido a centenas de observadores. A temperatura era demasiado baixa para um dia de verão e sentiu um arrepio. Começou a olhar para o quadro com a sensação de que estava a olhar pela janela de casa.

Um pouco mais longe uma parelha pastava à sombra de outro monte de palha.
Só que em vez do quintal da D. Fernanda onde se espreguiçava o Padoque e onde via a roupa a secar ondulante nos dias de vendaval ou a rua estreita das traseiras, onde o sol nunca entrava ou ainda o prédio cinzento e triste da frente, onde morava a Teresinha sardenta das tranças ruivas, via um campo, no que imaginava ser o Alentejo. Lembrava-se do fim-de-semana em que fora, com a mãe, ao Alentejo a uma casa fresca e branca num dia abrasador e azul. No quadro, o calor era intenso e a paisagem era seca e amarela. Um casal, certamente após um almoço, fazia a sesta à sombra de um enorme monte de palha. Uma cama improvisada no restolho do campo, duas foices e um par de sapatos que o homem abandonara era todo o património do casal. Uma ligeira brisa agitava o restolho nesta paisagem bicolor onde o amarelo do campo e das peles contrastava apenas com um céu da cor das roupas.

Pressentia o cheiro a feno e pó e essa memória tornou a visão ainda mais real As feições do homem estavam encobertas por um chapéu que lhe descaía sobre um rosto sem barba numa cabeça recostada sobre uns braços cruzados atrás dela.

Continuou a olhar e apercebeu-se que o peito da mulher subia e descia, compassadamente ao ritmo da respiração. Ela estava viva! Era real! Depois a sesta acabou e o homem espreguiçou-se sentando-se. O chapéu caiu-lhe e uns olhos castanhos sob umas sobrancelhas intensas abriram-se fitando-o. Como era possível tal coisa?

Os sapatos, o homem calçou os sapatos. Viu-o enrugar a cara quando se calçou, pelo esforço ou pelo cheiro que deles emanava. A mulher também se levantou, sorriu cúmplice para o homem (só podiam ser namorados, ou amantes) deram as mãos e começaram a andar pela tela até à moldura. Quico susteve a respiração. O casal desatou a correr e desenhou um salto para fora. Os olhos castanhos pestanudos abertos até mais não poder, o indicador esticado, a boca aberta sem que as palavras saíssem, a outra mão puxando a saia da mãe que o ignorava. Olhou para a mãe implorando atenção. Quando olhou de novo o casal tinha entrado numa pintura toda ela quadrados. Começaram a transformar-se. As cabeças eram agora quadrados, os narizes triângulos, numa explosão de todas as cores do arco-íris.

À medida que mexia a cabeça via o casal a mover-se no meio dos círculos, dos quadrados e dos triângulos. Continuou a olhar fascinado. O casal desatou de novo a correr e deu um novo salto. Agora aterrou no meio de uma dança. Despiu as roupas e deu as mãos às restantes dançarinas. Quico ouvia nitidamente a música. O ritmo ia aumentando e os dançarinos iam rodando cada vez mais depressa. Finalmente caíram no chão exaustos.

- Quico! O museu vai fechar. Vamos embora disse a mãe.

- Mãe sabes que eu vi um casal que estava num quadro a saltar para outros quadros e a mudar de cor e de forma?

- sim, sim disse a mãe pouco convicta. Em casa contas-me.

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