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Quem conta dois contos

Quem conta dois contos

25
Fev18

o prédio quatro

arp

Caro,

 

Benvindo sejas a este planeta numa galáxia longínqua. Quando se viaja não só no espaço, mas também no tempo, as consequências podem ser dramáticas. Lembra-te que aterraste num planeta a vários anos do sítio onde tens estado. Ainda não chegámos ao ano da verdade, nem passámos sequer o ano do ser. Estamos ainda no ano do ter. Se o príncipe Hamlet vivesse por cá, hoje, declamaria:

Ter ou não ter, eis a questão. Será mais nobre ter um carro novo e uma dívida com que o banco nos alveja ou devo sonhar com tempos diferentes?

Mas voltando ao teu regresso: Então não queres o teu velho emprego? Ainda bem! Eu por cá me vou mantendo. Falando em manutenção, hoje veio, de novo, um pedreiro, um faz-tudo, para desentupir as gárgulas que drenam a água do telhado. Já no tempo em que o prédio foi construído, só havia gárgulas e simples em pedra, de lioz, quimeras só em catedrais, ou na cabeça dos moradores, que as construíam sempre que iam ao cinema ver a realização de um qualquer sonho americano, ou à revista sonhando depois com a corista ruiva de sardas e pernas roliças. Elas também tinham as suas quimeras, não aqueles faunos góticos de pedra, mas heróis, por definição loiros, altos e espadaúdos que, de turbante e espada afiada libertavam mulheres de haréns ou morria num qualquer acto tão heroico quanto sem sentido. Voltando ao pedreiro, razão deste parágrafo já que parece o Quasímodo. Baixo, atarracado, com uns braços que quando os deixava cair lhe chegavam aos joelhos topejados por umas mãos, sapudas e grandes, onde se imagina sempre um martelo. Seria um Vulcano se a visão tosca não fosse o oposto de um divindade expectada: totalmente desprovido de qualidades para modelo da estatuária clássica.

O nosso Quasímodo apaixonou-se pelo prédio, como se de uma cigana se tratasse. Lida com a paixão de forma permanente e assertiva. Todos os dias descobre outros trabalhos para fazer. Hercules, ao menos, só tinha doze trabalhos para fazer, este tem um número ilimitado!

Temos de arranjar um tempo para nos encontrarmos. O tempo, esse inimigo, dos novos porque o achavam demasiado indolente, dos velhos porque o acham atrevido. Nós, da classe média da idade, somos os únicos que tendemos a ignorá-lo.

Abraços

 

 

O nosso prédio tem-se babelizado. No terceiro direito mora, agora, uma familia indiana que aromatiza o prédio com cheiros a especiarias de outras latitudes. Assumem trajar na sua cultura, ela de sari, enrolado, ele de túnica. Vegetarianos

 

Não resisti e abri um caderno

 

 

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