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Quem conta dois contos

Quem conta dois contos

25
Fev18

o processo

arp

Victor Vasilovitch estivera preso. Passara cinco anos no Facebook por andar na rua a distribuir propaganda anti regime e por olhar o pôr-do-sol. O julgamento fora sumário. Numa sala cheirando a repartição e a medo, um juiz, duas testemunhas que nunca vira antes nem veria depois, dois guardas armados com excesso de peso e falta de zelo. Leitura monocórdica do crime e da sentença. O juiz pontuava cada frase com um estalido da boca, ao jeito de ponto final. Os pontos de exclamação eram sonorizados com um bater da língua nos dentes, pelo menos assim achava Victor. Ao pedido de identificação anunciara-se como Josef K. O juiz levantara os olhos para ele, franzira o nariz ao guarda e Victor levara um murro nos rins. O humor não era bem vindo e a hipótese de um julgamento longo e complexo, eterno, subjacente à piada também não. Os comentários, perguntas sem resposta e outros versículos eram feitos com o olhar em frente, fixando a parede do fundo da sala de audiências onde não estava ninguém real. A sentença fora proferida em inglês para garantir a seriedade internacional do acto. Após o bater do martelo foi levado pelos guardas.

A travessia da estepe, num hifive, como um comboio mal aquecido, pior ventilado, durou dois anos. Foi sorrindo às poucas crianças que usavam este meio de transporte. Não sendo cristão achou que havia semelhança com a descrição do antigo testamento da arca de Noé. Aqui se transportavam seres pouco humanos de todo o tipo e que partilhavam este comboio virado arca. No fundo, navegava sobre uma estepe branca e infinita, como uma fuga a um dilúvio anunciado.. Foi registado no campo do Facebook com o número @675 F. Após os formalismos rápidos e simples foi conduzido, empurrado, até a uma caserna onde estavam cinquenta. Às casernas, aqui, chamavam grupos.

As prisões e campos para delitos de opinião sempre foram sítios onde a liberdade de expressão era total. Assim foram os Gulags por exemplo. O facebook não foge à regra. Os detidos neste campo podiam dizer tudo, criticar o regime, os regimes, até os alimentares se quisessem enquanto tinham a ilusão de liberdade. O sistema idealizado pelo Grande Irmão, hoje dominado pelo Grande Primo era perfeito. Os membros do Partido do Grande Irmão - PGI sabiam que nada prende mais que a ilusão da liberdade. Havia até Fomentadores do Protesto que na terminologia do PGI eram os FP. Como constava da nota interna, secreta, oriunda do órgão de cúpula do PGI, o “Encarregado”: todos os FP deviam garantir o inconseguimento da libertação facebookiana dos cidadãos. Os FP deviam frequentar os poucos cafés que resistiam e aí passar os dias garantindo a futura falência dos mesmos e ouvindo os rumores. Sempre que ouvissem vozes a propor manifestações em ruas ou, sobretudo, em praças deveriam garantir o seu inconseguimento. Sobre o sagrado também deveriam ser promovidos novos deuses. A promoção dos novos deuses seria da responsabilidade dos Fomentadores de Ilusões. Importava que os cidadãos tivessem a percepção que quanto maior a ilusão, maior o custo. E quanto maior o custo maior a inveja dos inconseguidos.

Victor cumpriu os 5 anos da pena. Na íntegra. À saída, do Facebook, não teve ninguém a esperá-lo. O guarda riu-se dele: “olha já cá temos mil milhões. Vais voltar, vais ver que não encontras ninguém aí fora”. Tentou forçar-se a ver uma lógica positiva nesta demência. Correu todo o exterior do Facebook. Apercebeu-se que os seus amigos estavam todos presos.

Passou numa livraria, comprou o Rinoceronte e sentou-se numa esplanada a ler.

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