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Quem conta dois contos

Quem conta dois contos

25
Fev18

o quadro

arp

Corria o ano da Graça de 1502, o jovem Ludovico, com uma penugem em lugar de bigode, olhos verdes e cabelo encrespado, entrara, como aprendiz, para o atelier de mestre Filippo. No centro da cidade, a poucos metros da Piazza della Signoria e da porta que se não era do paraíso, parecia. Trabalhava havia três anos. Começara aos dezasseis, a lavar os pincéis, a esticar as telas e a colocar as brasas na salamandra, para manter a aragem intrometida pelas frinchas da porta e das janelas, menos fria para os artífices e para os modelos. Por muito que lavasse os pincéis o odor dos óleos e da terebintina eram omnipresentes. Com o passar do tempo já achava que o cheiro fazia parte da sua anatomia, como o nariz que o sentia. Passado mais algum tempo achou que até conseguia distinguir as cores pelo cheiro. O ocre era mais acidulado e o rosa mais doce, se pálido era quase perfumado. Si non e vero e bem trouvato disserra-lhe mestre Filippo homem de barba farta e de larga boina sobre a testa para cobrir a falta de cabelo.

Passara todo um enorme ano até lhe ter sido autorizado a usar o carvão para riscar. Começara por formas muito simples que depois o mestre corrigia. Passado um outro ano de esforço já traçava o ondulado dos corpos com uma única passagem do carvão. A magia das cores veio depois, começou misturando os pigmentos essenciais com óleo de linhaça até ter a consistência que o mestre aprovasse. Depois foi misturando.

A luz vinha do tecto, coisa rara, para não dizer única, coada através de uma clarabóia suja, que nos dias de Outono deixava passar uns pilares de luz que incidiam sobre o modelo criando zonas de sombra e luz que os aprendizes corriam a tentar reproduzir. A clarabóia corria todo o tecto da sala de 136 palmos ou vinte e sete varas, por apenas quatro varas de largo. O chão, em terra, muito batida e misturada com anos de pigmentos pingados das paletas, dos pincéis e das aspirantes almas de artistas.

As encomendas vinham ou da igreja, sua excelência, o bispo era um amigo da casa, ou de duas famílias abastadas.

  1. Giacomo, homem com um rendimento de 5000 libras e uma despesa de três mulheres, encomendou o retrato da mulher, D. Lenore, a legitima esposa, para decorar o palazzo que entretanto restaurara. D. Lenore pousou por uma semana para o mestre. Chegava pela hora do meio dia, logo após o almoço. Vinha na carruagem do marido conduzida pelo cocheiro zarolho que herdara do pai. Mestre Filippo, desenhou e pintou D. Lenore tal como todos a viam. Demasiado redonda, de olhos mortiços, com um duplo queixo, proeminente como o ventre aliás. A similitude na reprodução levou a que fosse incluída a verruga que pontuava o nariz já de si enorme.

Quando a dona do corpo e da verruga olhou para o retrato torceu o nariz e bufando de raiva disse com estridência ao mestre que se conhecia bem e que não era ela que estava ali representada.

As encomendas da casa sustentavam o atelier metade do ano pelo que, diplomático, mestre Filippo disse que ia corrigir o retrato de memória. Lembrava-se de D. Lenore do ano em que se casara e iria reproduzir essa memória.

Após a saída de D. Lenore, mestre saiu porta fora. Voltou passado uma hora com uma mulher vestida pobremente, com a cara quase invisível por um lenço que a cobria. Entrou a medo. Mestre apontou-lhe o banco sobre o estrado onde se sentou e começou a tirar a roupa, o lenço da cabeça castanho, um xaile que já fora tricolor, mas que hoje era cinzento e que lhe tapava os ombros e um casaco cinzento em lã grossa. A sala estava quente das braseiras e da salamandra. Retirados os lenços, o xaile e o casaco, apareceu uma beleza de olhos avelã e cabelo quase ruivo que caía em canudos até aos ombros, deliciosamente torneados. Das mangas saiam umas mãos esguias e delicadas. A cara levemente ruborizada pelo frio que apanhara na rua e agora pelo calor das brasas era suave. Os olhos eram grande e tristes, visíveis através de umas pestanas desproporcionais que afinavam com umas sobrancelhas quase invisíveis de ruiva. As inevitáveis sardas davam um toque de exotismo que a tornavam totalmente irresistível. Os aprendizes tiveram que levar com uma cana na cabeça, manipulada com arte e precisão, para acordarem do transe

A pintura durou dois dias. Na tela transpareceu a beleza etérea do modelo. Era indubitavelmente o melhor quadro do mestre. As manchas de fuligem da cara foram limpas, na tela, e fora vestida com os melhores panos e brocados. O toque final foram uns brincos de rubis rodeados de diamantes e uma gargantilha condizente, retirados da tela de D. Lenore. A pintura foi feita sobre a anterior aproveitando a tela e o contexto.

Ao terceiro dia veio o casal ver a tela. D. Lenore ficou encantada. Extasiada mesmo. Como o mestre se lembrava dela. Sim era mesmo assim. Passaram uns anos, mas captara-lhe a essência. Ordenou ao marido que lhe pagasse em dobro já que tivera que trabalhar certamente até tarde para acabar o trabalho.

- Oiçam! Esta manhã tiveram a melhor aula de pintura que vos podia dar. E que foi?

- a mistura das cores para criar o tom da pele.

- Não! Berrou

- A escala do quadro, uma vez o tamanho real e a prespectiva…

- Não!!! Berrou ainda mais alto. Tu diz-me!

- Mestre o que pintou não foi a realidade, nem perto…

- Exactamente! Pintei o que as pessoa viam ou queriam ver. O espelho mágico que todos gostariam de ter, onde o reflexo não traduz a realidade, mas o que pretendemos dessa realidade. Um reflexo que é muito mais belo que a realidade. Eu faço o que as pessoas só pensam: cubro a fealdade dos corpos e das almas, converto pecadoras em beatas, cavaleiros em mendigos. Brisas em dias escaldantes.

Mestre Fillipo, um exímio manipulador, usava frequentemente sobreposições e subtilezas. Num quadro que pintara para Santa Croce, mas que ficara na casa do pároco, pintara, interpretara, o céu, o purgatório e o inferno. Fizera alguma mistura de feições criando uns seres híbridos. As representações do céu e do inferno eram clássicas. Para o purgatório escolheu um campo de trigo já ceifado, sobre um rio sem ponte. Os vários personagens olhavam o outro lado do rio onde despontavam flores e uns veados, a quem foi dado uma expressão quase humana. Quando o quadro foi exposto pela primeira e única vez só o pároco se viu representado no purgatório. Todos os restantes disseram ver-se no céu e sentir-se no inferno, ou teria sido o contrário?

 

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