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Quem conta dois contos

Quem conta dois contos

17
Dez19

o vírus

arp

O vírus alastrara havia tempo. Fora de incubação lenta, mas global. Fora desenvolvido em laboratório e era mais eficaz que o Ébola. Contrariamente a este tinha cura, ou melhor tinha uma vacina que tinha sido inoculada aos seus criadores. O vírus atacava uma região do cérebro que embotava as ideias. Havia também pessoa que estavam imunes, ou se tinham imunizado, mas a maioria tentava aparentar os sintomas para não ser agredido. F. Tinha-se imunizado, desde pequeno que se isolava, agarrado aos livros infantis ignorava os desportos de grupo. Na adolescência consumia as bibliotecas, os clássicos e os apócrifos, a física e a religião. Os romances e os policiais. Os seus companheiros eram pessoas raras, como ele. Juntavam-se aos sábados de manhã para discutirem livros e ideias. Chamavam “agora2 ao grupo, diziam que o acento se perdera na antiga Grécia. O grupo era antigo e fechado. Observadores atentos da realidade foram vendo o desenrolar da epidemia. Começou com os noticiários. As notícias que passavam eram sobre banalidades que eram exponenciadas até parecerem algo de tangível. Uma manifestação sobre uma torneira numa escola era coisa para trinta minutos de noticiário, os directos com a criança que descobrira a torneira avariada, as audições aos pais da criança. Uma entrevista ao avô do canalizador que montara a torneira. Tudo com planos cobrindo o espaço. O assunto era depois retomado nos dias sequentes, com comentadores que explicavam as razões possíveis para o não funcionamento das torneiras. Um historiador era chamado para enquadrar a torneira no tempo. No entretanto a população tomava partido. Uns pela criança a quem uma areia roubara o acesso à água, outros pelo canalizador. Ao terceiro dia o sindicato dos canalizadores entrara na contenda seguido no quarto dia pela associação de pais.

O grupo percebeu que não devia expor-se. Na única vez que tal tinha acontecido a discussão não tinha tido o mínimo de racionalidade por parte dos contagiados. Tinham sido acusados de não perceberem nada de canalização nem de crianças. Nem do contexto social. O argumento de que estavam a ser iludidos não colou e a partir daí resolveram não se manifestar.

Discutiam filosofia, uma disciplina que fora subvertida, aliás como tudo o que levasse a um pensamento critico.

Quando se separavam participavam nas manifestações, empunhavam cartazes com dizeres como “acabem com os cotonetes” ou “fim às touradas” ou o clássico “devolvam-nos os nossos sonhos”.

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