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Quem conta dois contos

Quem conta dois contos

02
Fev19

o visitador

arp

Vou chamar-lhe José, podia, terá, certamente, outros nomes, mas hoje será José, nome com várias declinações ao longo dos tempos, desde o mais novo de uns maus irmãos no antigo testamento, ao Carpinteiro pai, mas hoje, ou ontem, ou na passada semana, José é visitador, visita presos numa cadeia uma das obras de misericórdia a que se impõe. Cada visita é um momento de observação e reflexão. Não interessa o passado, nem a ele, nem a nenhum dos visitados. Apenas o futuro. A prisão é como uma travessia num túnel do tempo, só se pode olhar para a luz no seu extremo. Os ruídos das portas ferrugentas a fechar e os aromas da comida sensaborona do refeitório, hão-de de ficar para trás, um dia. A prisão é um estado presente, não passado nem futuro, presente, que impede de ver quem se quer e quando se quer, da amante ao pôr-do-sol ou de ouvir um acordeão tocado por um cego numa qualquer esquina.

Quando saiu passou por um acampamento improvisado, de quem se tinha também deixado prender, pela pobreza, pensou que na próxima vinda faria a visita ali.

Quando voltou para casa e entrou no prédio visitou a D. Maria, do rés-do-chão, presa nas duas assoalhadas e no andarilho em que se deslocava havia 10 anos. Estava a apanhar o sol da tarde no pequeno pátio das traseiras. O muro alto não permitia outra vista que não a do seu reboco caiado. Teria pouco mais de 10 metros por uns quatro, como qualquer quadra de uma prisão. Queixou-se da vida, do corpo, do frio da noite e do futuro que não se afigurava radioso como aquela tarde.

Subiu um piso de escadas e ouviu vozes altercadas do casal Pereira. Iam para vinte anos de vida em comum, resolveu bater e conversar dois minutos, entrou, disfarçaram como puderam. A troca de banalidades correu costumeira, acompanhada de um café e de uma torta de laranja, numa parede um quadro cópia de um Mondrien geométrico, em cores de outras vidas, alegres, como a luz que enta por uma janela. Sempre que fazia esta visita lembrava-se do Rui Veloso “tantos dias tantas noites sem fazer uma loucura”

Jorge do segundo, preso nas suas rotinas e nas suas ideias, metódico, estava a sair, vestido como sempre, sandálias, jardineiras, barba desgrenhada. Nunca comia carne, nunca bebia álcool, não fumava. Cumprimentou e convidou-o a entrar para mostrar uma horta, biológica que estava a desenvolver na varanda a sul.

No terceiro andar Jeremias, constava que nascera de fato e gravata, sempre formal, estava também preso nas suas rotinas e ideias, mas achava-se totalmente diferente do Jorge. O facto de vestir sempre um fato de riscas, não o levava a perceber o seu estado de liberdade limitada

Lera uma vez, num autor russo, que as alegrias são todas iguais enquanto as tristezas são todas diferentes, cada um tem a sua própria tristeza que entendem não lhes poder ser tirada, ao contrário da alegria que se consegue tirar por vezes até com muita facilidade.

 

Finalmente chegou às águas furtadas que partilhava com dois outros o João que andava apenas nos romances que lia ou na poesia que escrevia ou Joaquim que ouvia música e compunha nele, nem gravidade o prendia ao planeta Apesar de a circunstância ser a maior prisão de todas, não deixava de ser um estado de espírito.

 

 

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