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Quem conta dois contos

Quem conta dois contos

25
Fev18

pesadelo 2

arp

Era professora de inglês. Fora, pretérito mais que perfeito, que o presente, ou no presente mais que imperfeito era atravessadora mediterrânica numa barcaça assassina que partilha com mais outros duzentos de futuros duvidosos certamente imperfeitos e de pretéritos não verbalizáveis.

A longa fila, em que haviam atravessado as dunas lia-se como pontos de interrogação pela inclinação dos corpos e pela dúvida dos espíritos. Saíra da cidade subsariana onde fora professora sem saber exactamente como ou porquê, num momento estava no Chiado a discutir o Ser e o Nada no outro estava existindo num fim de mundo e logo depois atravessava um deserto azulada de tuaregue para esconder os tons da pele e do cabelo. A poucos quilómetros apanharam uns velhos camiões, Mercedes, de carga, com bancos corridos e com uma cobertura de lona que abanava fazendo um ruído que impedia as conversas enquanto subiam e desciam as dunas como se navegassem num mar encapelado, num som constante ronronante e tranquilizante.

Os ataques violentos às aldeias e cidades, os raptos o medo permanente pusera em fuga todo um povo. Cada um fugira para onde pudera e ela atracara-se a um grupo que debandara para o norte em direcção à Europa entendida como um Olimpo. Partiram carregados de esperança essa droga perigosa quando deviam ter levado água e comida. Andavam de noite para evitarem a canícula e os morteiros. Ao contrário da visão de Hitchcock os pássaros eram garantia de segurança. O chilrear matinal trazido pelo mistral certificavam-nos a ausência de tiros e de guerra.

Quando paravam, num oásis, já se ouviam vozes de conversas, curtas, mas já era um princípio. Chegaram à costa onde os esperava uma barcaça velha e ferrugenta com um motor fora de borda. Já fora vermelho, já vira fainas de sardinha, já tivera uns bancos. Hoje a realidade era outra. Sem cor sem bancos, sem sardinhas. Os pescadores de homens, mas que não eram Pedros, cobravam as entradas a bordo neste porto clandestino. Aceitavam todo o tipo de moeda aplicando uma cotação e uma taxa. Os homens vestiam agora os seus “kispos” comprados em boa hora no bazar. A brisa marítima destes primeiros alvores era áspera e no mar seria mais intensa. Ninguém reparara no azul intenso do mar que contrastava com o claro azul do céu, como não haviam reparado nos matizes de amarelo a quase vermelho das dunas produzidas por Deus para que tão intensamente Hogan traduzisse nos seus óleos.

Não tinha o dinheiro que os pescadores de homens pretendiam, mas conseguiu pagar a viagem com a promessa de tradução, de intérprete com o mundo primeiro, como se houvesse necessidade de traduzir a fome, ou a sede ou sobretudo o medo e o desespero.

Nada tem mais valor que uma promessa. Talvez seja isso que leva os eleitores a deixar-se enlear pelas promessas políticas como se de uma promessa de casamento se tratasse.

- shocran, shocran agradecera.

Zarparam quando o dinheiro se acabara na fila. Passado algum tempo deixaram de ver terra e seguiam crédulos a direcção que uma pequena bússola. Passada uma hora o intenso cheiro a medo só era abafado pela brisa do mar.

Do nada, do azul, literalmente, como dizem os americanos, surgiu um pequeno avião que começou a sobrevoar a barcaça enquanto um fotógrafo sugava pelas suas lentes as vidas como qualquer necrófago. Esperava, certamente mostrar estas imagens coadas através de um ecrã que seriam diluídas no mar de indiferença de quem as via.

- Come os cereais olha o que aqueles meninos gostariam destes cereais

- Oh Teresa, viste o meu telemóvel? O quê? Outra vez a mesma notícia? Não há meio de acabar esta fantochada?

- Tu vê é se mandas arranjar a torneira da cozinha que já não posso ouvir os pingos. Ouve o que te digo que é importante.

- Filho já sujaste outra vez a roupa!

Apercebeu-se que o encontro dicotómico, a preto e branco, estaria próximo. Era a única razão para terem avistado a avioneta. Por fim avistaram uma corveta da marinha. Todos os olhos cintilaram como se a luz da esperança lhes tivesse dado pilhas.

Todos sonhavam viver num local onde para matar só havia o tempo.

Sentiu que a atiravam pela borda do navio. Gritou. Ouviu o baque que o corpo, o seu, fez com a água. Era como se estivesse a ver e a não sentir.

Acordou transpirada. Não voltaria a comer picantes ao jantar.

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