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Quem conta dois contos

Quem conta dois contos

21
Set19

Santa Bárbara de Nexe ano de 2053

arp

A Escola, do plano centenário, tinha sido reabilitada ia para três anos. Os centros escolares de antanho haviam colapsado e os novos decisores tinham regressado ao modelo de escolas pequenas mais distribuídas pelo território. Também as pessoas haviam repovoado o outrora interior. Após a queda em desgraça no ano de 2025 da seita fora possível implementar diferenciação muito positiva nos impostos para os “interis”, como agora lhes chamavam os “urbas”. Também os centros de saúde, no interior, tinham mais médicos per capita que os urbanos. As quotas de acesso às universidades eram um ponto mais baixo para quem provasse viver todo o secundário no interis. E as aposentações também tinham um ano de bonús para quem tivesse trabalhado mais de 20 anos a mais de 100km de uma urbe e 2 anos para quem vivesse a mais de 200km. Esta migração como se esperava tinha tido resultados sequentes em toda a economia inteiror. Hoje a professora Isilda avaliava o conhecimento de história de Portugal aos seus alunos de 4º ano. Já sabia como a avaliação, oral, iria decorrer, havia um aluno que tentaria desarmar os colegas. Era educado pelo avô, pessoa do antigo regime.

A professora entrou na sala onde os 20 alunos a esperavam. Era o seu segundo ano naquela escola e tinha garantidos os próximos 10. Assim que entrou veio-lhe à cabeça que o cheiro das escolas era sempre igual. Como o cheiro das igrejas a velas e humidade aqui era o cheiro a crianças e a detergente do chão.

“bom dia meninos”

“bom dia senhora professora”

“a professora não disse meninos e meninas”

O jovem vestia uma T-shirt branca com um legume estampado, como antigamente se estampavam estrelas vermelhas ou a efígie de um qualquer Vara, Che Guevara quero dizer.

“pois não, se reparares, hoje só estão rapazes”

“bem, não sei”

“olha à tua volta”

“a roupa não faz o sexo”

“é verdade e a contestação não elimina a burrice, bom, vamos então começar, Joãozinho, em que época vivemos?”

“vivemos na era real, que se seguiu à era absurda que por sua vez se seguiu à era cenozoica que seguiu a era…” João tinha uma pequena estatura e usava óculos, era um consumidor de informação escrita. Era muito dinâmico, criara a biblioteca da escola que fora desmantelada em 2020”

“muito bem, e podes descrever-me a era absurda?”

“ora a era absurda define-se como o período de tempo que decorreu no primeiro quartel do século XXI e onde ocorreram várias pandemias…”

“E que pandemias foram essas?

“Em áfrica o Ébola, em Portugal o netino”

“muito bem e podes detalhar?

O aluno passou a mão pelos olhos baixou ligeiramente a cabeça antes de recomeçar a falar:

“sim, o netino define-se por uma dependência acrítica dos meios de comunicação em geral e das redes sociais em particular, nesse tempo, a que hoje há historiadores que lhes chamam a era negra, ocorreu a globalização da economia, com base nesse conceito económico, foi também globalizado o disparate”

As frases saiam com segurança, a professora estava orgulhosa do pupilo

“era negra, oh senhora professora…”

“se tivesses vivido nesse tempo e fosses vaiado por teres ideias racionais e próprias percebias, continua João”

“como disparates mais recorrentes o chamado buraco da agulha, que quer dizer falar de questões pontuais e por norma por pessoas sem habilitação, por exemplo, sobre o ambiente falava uma jovem inconsequente, de 14 anos. “

“e a era decorreu até quando?”

“até ter faltado a luz durante 5 dias consecutivos, um bando de cegonhas pousou numa estação eléctrica e foi um apagão geral”

“houve grandes revoltas, as pessoas entraram em síndrome de abstinência, tinham tremores, agitação, insónias, mas como qualquer dependência ao fim de 72 horas  passa e deu-se a chamada grande inversão, as pessoas voltaram a falar directamente e a trocar ideias, foi refeito o conceito de ágora, o termo narrativa foi banido do léxico corrente, a pós verdade foi substituída ou reconfigurada para mentira, hoje mentir voltou a ser crime. As crenças religiosas renasceram agora que os falsos tinham sido limpos…”

“explica-me o que são os falsos por favor”

“bem são pessoas inexistentes, criadas virtualmente por seres sem opinião própria ou sem coragem para assumir a cara e que são mandados por outros e que distribuíam posts na net. Mas como ira dizendo, com a inversão voltou a haver vacas no campo, touradas em Serpa e caçadas na Beira Baixa. As barragens foram restauradas, fechando-se as comportas e recriando as albufeiras. Voltou a haver peixe nos rios, o combate aos fogos voltou a ser desnecessário nos montados já que os toiros resolviam o problema”

“e é tudo?”

“bem, não falei no mais importante, percebeu-se finalmente para onde ia o dinheiro dos contribuintes, depois do absurdo de tudo estar pior e a dívida aumentar…”

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