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Quem conta dois contos

Quem conta dois contos

05
Abr20

viagem 1

arp

Vou confessar-vos uma coisa: furei o bloqueio e viajei. É verdade, mas garanti que não precisava de quarentena e que não contaminaria ninguém. Já voltei e consegui cumprir esses dois objectivos. Fui o mais longe que consegui. Atravessei a barreira do tempo e fui ao passado. Consegui aproveitar uma inflexão do espaço e andei para trás cinquenta anos. Cheguei à escola, estavam todos de bata branca, cantavam o hino enquanto a bandeira era hasteada. Eram todos bastante magros. Havia uma excepção apenas. O tempo estava ameno e as árvores estavam floridas. Mas já passara a hora do almoço, o cheiro de quem tinha passado a manhã a correr absorvia o aroma das duas tílias do passeio fronteiro.

Entrei após o hino e sentei-me na carteira dupla com o tampo levadiço e um buraco para o tinteiro que já ninguém usava. Se levantássemos o tampo podíamos ler “o Carlot tem pilhos” em escrita esculpida no pinho, a pressa ou a incompetência retirada duas vogais à frase, mas o espirito não se perdera. Era o momento da geografia, e por detrás do cheiro a soalho lavado, eram declinados os rios de Portugal “o rio Douro é um rio que nasce nos picos da Serra de Urbión e tem como afluentes em Portugal, os rios Inha, Águeda, Côa, Sabor, Tua, Pinhão, Torto, Távora, Corgo, Varosa, Paiva, Tâmega, Sousa e Tinto.” Os nomes foram senod escritos a branco no quadro preto, com um chiar arrepiante do giz. Seguiu-se um tempo, que pareceu infinito, em que a declinação foi repetida, como um mantra, ou uma ladainha, a cada palavra havia um batimento no chão com uma cana, marcando o compasso. Só se sentiu o fim quando foi audível o toque de um sino. Todos fitaram o professor aguardando a ordem para se sair, ordeiramente. Quando a ordem foi dada o ruído das solas cardadas ressoou por todo o edifício. Para trás ficaram dois, que sabiam ir ser objecto de chacota ou mesmo de agressão. Olhava para um laboratório darwinista.

O recreio, de chão térreo, tinha duas balizas improvisadas e uma oliveira. Ambos eram disputados, se bem que garantido, só o dono da bola e mesmo assim à baliza.

No tardoz enfileiravam-se os mais velhos para saltarem ao eixo. Outros, sobre um círculo traçado, arremessavam os piões, “à homem”, por cima, ou “à menina” para a frente. Na zona mais húmida fora feita uma cova e jorravam berlindes multicolores. Ou melhor de várias cores. Multicolor apenas um, o “abafa”, o terror dos proprietários mais novos que jogavam com esferas metálicas ou berlindes plásticos. Preciosidades, transportados em sacos de tecido com fecho de corda.

Sob a oliveira onde vários alunos se empoleiravam como cabras no magreb, jogava-se à navalha sob o olhar do professores.

Uma continua puxava pelo orelha de um primeiro-anista que fizera “alguma”. Mas o ruído e a agitação manteve-se, pelo menos até ao novo toque do sino.

Acompanhei a saída, uma passagem em casa para tirar a bata e lanchar e rumo à catequese, no frio de uma sala de pedra, que não aquecia nem nos agostos mais intensos.

O regresso foi rápido, abri os olhos e estava no dia 31.

 

 

 

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