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Quem conta dois contos

Quem conta dois contos

05
Abr20

Viagem 2

arp

A irresistível atracção pela fuga levou-me de novo a dar uma volta pelo passado. Cheguei, eram pouco mais de sete da tarde. Todo o espaço estava posto para as festas, era a feira da Piedade. No ar a mistura de cheiros a farturas, cachorros, pipocas e cerveja. Num canto mais afastado um grelhador de febras lançava fumarolas no ar. As febras, demasiado salgadas iam sendo entremeadas em bolas de pão caseiro. Um estímulo auditivo intenso, entre os risos, inícios de frases ditas alto, por quem tinha já emborcado vários copos de três e umas imperiais, a música do carrossel, um hit do Nilton César, “receba as flores que lhe dou” seguida da “namoradinha de um amigo meu” do Roberto Carlos. Por cima da algazarra ouviam-se as vozes dos promotores dos carroceis, sentados numa girafa parada.

Uma mulher em cima de um atrelado anuncia cobertores de papa. A voz saia-lhe por um megafone que empunhava com a mão esquerda enquanto com a direita revolvia os cobertores.

Numa tenda vendiam-se bugigangas de plástico numa miscelânea de brinquedos e eventuais utilidades para a cozinha. Noutra banca, colares de pinhões e chupa-chupas piramidais que nos faziam cuspir papel misturado com açúcar com sabor a laranja.

A agitação do andar levantava o pó omnipresente.

Numa barraca, de zinco ondulado, três mesas de matraquilhos esperavam-me, já lá paravam três amigos, vestiam calças à boca-de-sino e pullvoers dois números abaixo e o cabelo 3 números acima. À moda, a excepção era A. com calças Wrangler vindas de uma ida a Espanha em conjunto com os Solanos e duas garrafas de Brandy .

As partidas foram disputadas na versão “perde pagas”. Fui o último a chegar, também vinha de tão longe. No perímetro tinham ficado a Maxi Puch de L., vermelha e a Vela Solex de R. de um improvável amarelo. No parque improvisado outras viaturas a dois tempos, com motor Sachs e cor laranja. O dia não era de jantar, mas de ir comendo. A ronda dos cachorros acabava nas farturas, onde um homem, com um pano da loiça por avental, despejava a massa numa sertã com óleo quente com uma seringa tirada de um gigante sem nome. A bebida, em excesso, cerveja Clock, não era para tirar a sede, mas a passagem da certidão de adulto, de homem. E foi assim que L., já bebido em excesso, foi enfiado nas cadeiras que rodopiavam presas por correntes. O movimento centrífugo punha os passeantes perto da horizontal, mas o estômago não aguentou.

O fim de noite, foi passado encostado às varolas fazendo corridas de patos adquiridos ali mesmo. A distância às raparigas era por vezes tão grande como a deste percurso. Noites como aquela não eram mistas.

O álcool tinha de ser solidificado, fomos ao Pão com chouriço, a bebida, com justificações diversas, passou ao pirolito e larangina C.

A noite acabou fria, em casa, com uma tosse tetatralizada para justificar o Vicks que escondia o cheiro do tabaco e do álcool.

Amanhã? Bem amanhã…

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